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Diogo Schelp

'Você sabe que não sou bolsonarista', diz Covas a Boulos após sabatina

Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (Psol) -
Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (Psol)
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

24/11/2020 11h26

Ao final da sabatina dos candidatos à prefeitura de São Paulo no programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (23), depois que as câmaras haviam sido desligadas e Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (Psol) posavam para as fotos de divulgação, o prefeito tucano virou-se para o adversário e comentou, rindo: "O Boulos fica me chamando de bolsonarista, mas sabe muito bem que eu não sou." O psolista riu do gracejo.

Guilherme Boulos não classificou Covas com essas exatas palavras durante os dois blocos de perguntas de que participou no centro do Roda Viva. Mas sua estratégia de fato foi a de se diferenciar de Covas apresentando-se como alguém com sensibilidade social, em oposição a um projeto político que, como ele vem repetindo na campanha, perdeu a "empatia" com as pessoas. É a maneira velada que a esquerda tem de chamar alguém de bolsonarista.

Por não ter sido exatamente um debate, mas duas sabatinas intercaladas, Boulos teve dificuldade de centrar seus ataques no prefeito, que, segundo a mais recente pesquisa Datafolha, tem dez pontos percentuais a mais de intenção de voto. Para compensar a ausência de um embate direto com Covas, Boulos tratou de embutir nas suas respostas aos questionamentos dos jornalistas críticas ao prefeito, por vezes desviando-se do que lhe havia sido originalmente perguntado.

Covas, por sua vez, nos seus dois turnos de perguntas, praticamente não mencionou o adversário. Bombardeado por perguntas sobre sua gestão da pandemia, sobre o sistema de creches conveniadas na cidade, sobre as acusações contra o seu vice, Ricardo Nunes (MDB), e sobre a influência do governo João Doria na prefeitura, Covas concentrou-se em defender o próprio legado administrativo. Em diversos momentos, foi evasivo.

Já os pontos fracos de Boulos, como ficou claro na sabatina, são o seu histórico de atos radicais como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e suas ideias heterodoxas sobre economia e gestão pública. Em uma mesma resposta, Boulos minimizou táticas violentas em protestos e criticou a lei do teto de gastos públicos. Mas garantiu que, se eleito, governará com responsabilidade fiscal — ainda que fazendo questão de deixar claro que, acima de tudo, governará com "responsabilidade social".

A menos de uma semana do segundo turno das eleições — e com a margem de vantagem de Covas em relação a Boulos se estreitando — a estratégia de ambas as campanhas já está dada: do lado tucano, defender sua trincheira a todo custo; do lado psolista, atacá-la com as armas disponíveis, mas tomando cuidado para não se exceder sob o risco de confirmar as suspeitas de radicalismo político.

O curto tempo conta a favor de Covas. Boulos ganha terreno, mas está mais exposto às próprias contradições. Se Bruno Covas fosse de fato bolsonarista, as chances do candidato do Psol seriam maiores.