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Diogo Schelp

Acordo do Brexit não dá a liberdade que britânicos esperavam

Primeiro-ministro Boris Johnson - PA Media
Primeiro-ministro Boris Johnson Imagem: PA Media
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

24/12/2020 14h22

O governo do premiê Boris Johnson e a Comissão Europeia anunciaram nesta quinta-feira (24) o acordo de livre comércio que dará um ponto final no longo processo de divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia (UE), iniciado em junho de 2016, quando os britânicos votaram em referendo pela saída do país do bloco. Mas as expectativas que 52% dos cidadãos que optaram pelo Brexit tinham quatro anos atrás não estarão plenamente contempladas a partir de 1º de janeiro, quando o acordo hoje anunciado entrará em vigor (ainda que provisoriamente, enquanto o Parlamento Europeu não o aprova).

Foram muitas as razões que levaram a maioria dos eleitores britânicos a optar pelo Brexit em 2016.

Uma delas foi a percepção de que fazer parte da União Europeia reduzia a soberania britânica, especialmente no que se referia a regulamentações no campo econômico ou a leis europeias que se sobrepunham às leis nacionais e que criavam burocracias e proibições excessivas.

Johnson costumava citar como exemplo a norma que impedia crianças com menos de oito anos a encher balões. Tratava-se, porém, de fake news. Na realidade, a norma apenas diz que determinados tipos de balões precisam conter um alerta na embalagem para que não sejam manuseados por crianças sem supervisão de um adulto.

Não deixa de ser verdade que a UE tem uma capacidade incrível de criar regulamentações detalhadas sobre os temas mais diversos. Mas os britânicos não ficarão totalmente livres delas a partir de 2021.

Para poder continuar desfrutando de tarifas de comércio zeradas e dessa forma manter o acesso privilegiado ao mercado dos países da União Europeia, conforme prevê o acordo divulgado hoje, os exportadores britânicos terão que seguir obedecendo normas e regulamentações criadas pelo bloco.

Além disso, um novo pacote de regras, antes não existentes, entrará em vigor. Por exemplo, para poder exportar determinados produtos para o mercado europeu, como automóveis, as empresas do Reino Unido terão que provar que pelo menos 60% das peças são de fabricação britânica ou de países da UE.

A autonomia regulatória, portanto, um dos principais motivos de insatisfação dos eleitores britânicos com a UE, não passava de miragem. A diferença é que agora não terão representantes no Parlamento Europeu para defender seus interesses.

Outra razão para o Brexit era o descontentamento com a política de imigração. Cidadãos de outros países da UE podem morar e trabalhar no Reino Unido e desfrutar dos serviços públicos livremente. O país de fato absorveu centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros nos anos anteriores ao referendo. Os britânicos torcem o nariz especialmente para aqueles vindos do Leste Europeu e para os muçulmanos.

Mas a contrapartida é que os britânicos também têm livre trânsito e liberdade para se estabelecer e trabalhar nos países da UE. Isso acaba agora, com o acordo definitivo do Brexit.

Ao mesmo tempo, ainda que um divórcio com acordo seja muito melhor do que um sem acordo — uma opção que Boris Johnson ameaçava adotar quando foi eleito primeiro-ministro, em julho de 2019 —, estima-se que a recuperação econômica da crise causada pela pandemia será mais lenta a partir da concretização do Brexit, o que significará também uma oferta menor de bons empregos dentro do Reino Unido.

A estimativa de um Brexit sem acordo era de uma redução de 2% no PIB britânico já em 2021. O efeito da saída com acordo vai ser mais suave, mas ainda assim terá um impacto negativo de 4% no PIB do país no longo prazo.

O referendo do Brexit foi o primeiro grande ato da onda nacionalista que se alastrou pelo mundo, levando à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil (aqui, por óbvio, turbinada por particularidades da política local, como a aversão tremenda ao PT).

O desfecho desse ato, quatro anos depois, é uma demonstração de que as insatisfações com as instituições multilaterais e a integração global entre países não são facilmente resolvidas simplesmente tentando voltar atrás no tempo, buscando retornar a um estágio da economia mundial e da relação entre as nações que não existe mais.

O acordo do Brexit fechado no apagar das luzes de 2020 é um refresco, mas com sabor amargo.