PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Poucos testes, não vermífugo, explicam baixos números de covid-19 na África

Teste de covid na África do Sul, em janeiro de 2021 - Reuters
Teste de covid na África do Sul, em janeiro de 2021 Imagem: Reuters
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

08/04/2021 14h53

Em discurso feito em Chapecó (SC), nesta quarta-feira (7), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido e sem noção) disse que o uso frequente de ivermectina, um vermífugo, e de hidroxicloroquina, para tratamento de malária, ambos medicamentos sem eficácia contra covid-19, é o que explica os baixos números da pandemia na África.

"Na África não existe nada, existe ivermectina para combater a cegueira do rio (doença causada por parasita) e outras coisas, junto com a hidroxicloroquina para combater a malaria e procurem saber o que acontece com aquele povo no tocante à covid, não vou entrar em detalhes", disse Bolsonaro. A relação de causa e efeito estabelecida pelo presidente, contudo, é falsa. Ele nunca entra em detalhes porque não tem como sustentar suas mentiras.

Desde o início da pandemia, foi registrado um total de cerca de 3 milhões de casos e menos de 100.000 mortes por covid-19 no continente africano. O Brasil, com um sexto da população africana, teve no mesmo período 13 milhões de casos e mais de 330.000 óbitos pela doença.

Mas a explicação para esses números díspares não tem nada a ver com o vermífugo ou com o remédio para malária que o presidente brasileiro insiste em exaltar, apesar de todas as evidências científicas em contrário, como possível "tratamento precoce" da covid-19.

A África parece um oásis em meio ao caos pandêmico mundial principalmente por uma falha estatística: na região, testa-se muito pouco para covid-19. Em muitos países, há simplesmente um apagão de dados de testagem — sequer são divulgados — e, em outros, existe uma grande subnotificação.

Estudos independentes de soroprevalência de anticorpos para covid-19 em países da região confirmam que os dados oficiais não refletem a realidade.

A revista americana Scientific American, por exemplo, cita um estudo indicando que, no Quênia, o número de pessoas que se infectaram com o vírus é 25 vezes o que foi oficialmente divulgado. A julgar por esse levantamento, só no Quênia o total de casos pode ter chegado a 3 milhões — número que vem sendo divulgado para todo o continente.

Outro estudo revela que apenas 2% das mortes por covid-19 em Cartum, capital do Sudão, entre abril e setembro do ano passado, foram atribuídas corretamente à doença. Já um levantamento feito em necrotérios na capital de Zâmbia que revelou que um em cada cinco dos corpos analisados estava infectado no momento da morte. Nenhum deles havia sido registrado como sendo de vítima da covid-19.

Mesmo na África do Sul, um dos países com melhor estrutura de testagem e tratamento do continente, as autoridades suspeitam que conseguem registrar apenas um em cada dez casos de covid-19.

Outras duas explicações complementares para o número proporcionalmente menor de óbitos por covid-19 no continente são o perfil etário da população africana e a baixa incidência de comorbidades, como diabetes e obesidade, em comparação com outras regiões do mundo.

A questão da idade é considerada uma hipótese forte por muitos cientistas. A população na África tem em média 18 anos de idade — bem menos do que, por exemplo, a média de 32 anos no Brasil. Como o novo coronavírus é mais letal entre os idosos, é mais plausível que em uma população mais jovem as taxas de mortalidade pela doença sejam mais baixas.

Uma das preocupações de autoridades de saúde e cientistas em relação à África é que a região seja o ambiente propício para o surgimento de novas variantes mais contagiosas e letais do novo coronavírus. Afinal, a livre circulação do vírus é a condição ideal para as mutações. Uma dessas variantes, originária da África do Sul, foi identificada em um paciente em Sorocaba, no interior de São Paulo, na semana passada.

Estatística e demografia, e não vermífugo, são os fatores que explicam os números de covid-19 na África.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL