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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro usa problema de saúde para atacar PSOL e PT indevidamente

Ambulância leva o presidente Jair Bolsonaro do Hospital das Forças Armadas para a Base Aérea de Brasília, de onde ele foi transferido para São Paulo de avião - Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
Ambulância leva o presidente Jair Bolsonaro do Hospital das Forças Armadas para a Base Aérea de Brasília, de onde ele foi transferido para São Paulo de avião Imagem: Frederico Brasil/Futura Press/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

14/07/2021 18h46

As teorias conspiratórias são uma praga da política nacional. Em 2018, quando o então candidato presidencial Jair Bolsonaro foi esfaqueado por Adélio Bispo em Juiz de Fora (MG), circulou em alguns nichos de esquerda a versão de que tudo não passava de uma armação para ajudar a elegê-lo. Já entre os bolsonaristas vingou a convicção, incentivada por familiares e pessoas próximas ao candidato, de que se tratava de um atentado com as marcas de partidos de esquerda como o PT e o PSOL, ao qual Bispo havia sido filiado.

Agora, acometido por um problema de saúde que pode ser consequência de uma sequela da facada, Bolsonaro — ou quem quer que esteja administrando o seu perfil no Twitter — volta a usar o episódio para se apresentar como mártir de um complô partidário.

"Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil", afirmou a publicação em sua conta na rede social, completando que aquele foi um "atentado cruel não só contra mim, mas também contra a nossa democracia".

Trata-se de uma acusação indevida e leviana, cujo único propósito é obter ganhos políticos e eleitorais, num momento em que o presidente se vê acuado pela CPI da Covid e por uma reprovação popular recorde.

Bolsonaro foi, sim, vítima de um atentado cruel contra sua vida em 2018. O criminoso, Adélio Bispo de Oliveira, está preso. Mas a Polícia Federal, em duas investigações separadas, e o Ministério Público Federal concluíram que ele agiu sozinho e sem mandantes.

Não há absolutamente nada que ligue o ataque contra Bolsonaro a qualquer conspiração envolvendo partidos ou mesmo grupos ou pessoas vinculadas a partidos políticos.

Quando um governante tem problemas de saúde ou precisa passar por uma cirurgia delicada, deve-se sempre acompanhar o caso com preocupação — seja em respeito à pessoa, seja pela importância que ela tem para a vida nacional e para os rumos do país.

Usar um episódio como esse para fazer ataques políticos a adversários e insinuações indevidas é, também, um atentado contra a democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL