PUBLICIDADE
Topo

Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro corrompe a moral cristã

só para assinantes
Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

25/03/2022 13h33

Jair Bolsonaro faz no governo o que ele e seus filhos sempre fizeram nas sombras de sua vida pública: explora mecanismos de liberação de dinheiro do povo para atender a interesses privados.

O "Bolsolão" do MEC, tal qual o orçamento secreto, está longe de ser um ponto fora da curva.

Flávio e Eduardo tiveram cargos remunerados em Brasília enquanto faziam faculdade no Rio de Janeiro. A caseira do imóvel de veraneio da família também tinha. Como confirmou o Ministério Público em ação contra o presidente por improbidade administrativa, Bolsonaro fez os brasileiros pagarem durante 15 anos por uma "assessora parlamentar" fantasma, registrada em seu gabinete de deputado federal, enquanto ela dava água para o cachorro em Vila Histórica de Mambucaba.

"Não, não foi em Brasília", respondeu Wal do Açaí ao procurador que a questionou sobre sua posse. "Eu nunca fui, nunca fui a Brasília", completou. Ela também negou cuidar de reserva e emissão de passagem aérea para o deputado, elaborar pronunciamento e minuta de matérias legislativas com proposições, pareceres e votos; assessorar em reunião de comissões, audiências públicas e outros eventos; lidar com material de expediente, como grampeador, papel ou qualquer coisa relacionada à atividade parlamentar; e até ter e-mail e computador. Questionada se sabe usar este último, respondeu: "muito mal".

"Não precisa interrogar a Wal, não, e nem a mim", reagiu Bolsonaro, do auge da onipotência que Augusto Aras, Arthur Lira e Gilmar Mendes lhe garantem. "Eu estou confessando: ela nunca esteve em Brasília. É verdade", disse em transmissão ao vivo nas redes sociais. "Esse pessoal que está no estado não vem a Brasília, toma posse por procuração. Eu fiz isso a vida toda." Depois, Flávio e Carluxo são acusados de liderarem organizações criminosas e ninguém sabe por quê.

O patriarca e atual presidente, na verdade, continua promovendo serviços clandestinos. Após ter comprado apoio do Congresso com o orçamento secreto, de emissoras de rádio e TV com a liberação obscura de verbas de publicidade federal, de parte da população de baixa renda com o que ele próprio chamava de "Bolsa Farelo", e de pastores aliados com o perdão da dívida de igrejas com o Estado, Bolsonaro mandou Milton Ribeiro, segundo áudio do ministro da Educação, atender aos interesses específicos de dois pastores que não têm cargo no MEC.

Três dos dez prefeitos que corroboram a intermediação de Arilton Moura e Gilmar Santos admitiram que ouviram do primeiro pedidos de propina em troca da liberação de verbas federais da Educação. A contrapartida solicitada variava entre dinheiro vivo, quilo de ouro, construção de igrejas e escolas, e compra de Bíblias da editora de Santos, em versão comentada pelo pastor.

Quando escrevi os artigos "A reforma moral", "Bolsonarismo x cristianismo" e "Barra Torres confronta Bolsonaro com princípios morais e cristãos", não imaginei que o sacrilégio bolsonarista chegaria ao cúmulo da aparente lavagem de dinheiro sujo em livros bíblicos. É a imagem mais emblemática até hoje da exploração da religião por interesses escusos e para fins criminosos, ambos condenados pela doutrina cristã. A propaganda do "governo sem corrupção" apenas encobre a corrupção sem governo.

Um dia depois de quatro ministros do STJ indicados pelo PT terem condenado Deltan Dallagnol a indenizar Lula pelo powerpoint da denúncia contra o petista, o outro Gilmar, o Mendes, aliado de Lula e Bolsonaro na vingança do sistema, revelou ter dito ao atual presidente que seu legado é "nomear [Sergio] Moro e devolvê-lo ao nada". Moro, ao contrário de Ribeiro, na verdade recusou-se a compactuar com a perversão privada do Estado, de modo que ele próprio se devolveu a um "nada" de cargos em troca de princípios, muito mais digno que o "tudo" por poder e impunidade.

Mas o legado real de Bolsonaro vai além da blindagem geral.

Ao transformar o debate público em guerra de gangues, onde, em nome de Deus, os crimes de um lado - e em benefício deste lado - são relativizados e legitimados pela comparação com os crimes do outro, o presidente, seus filhos e sua claque - para a qual o problema é ser pego - corrompem não só as tradições liberal e conservadora, como também a moral cristã, anestesiando a população com o conformismo em ser roubada.

Em outubro, ela vai decidir se quer ser assim "a vida toda".