PUBLICIDADE
Topo

Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O 'cristianismo fake' na Rússia e no Brasil

Conteúdo exclusivo para assinantes
Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

18/04/2022 20h31

1.

O uso político de instituições e tradições supostamente cristãs chega ao apogeu quando seus líderes legitimam moralmente a invasão de outro país e os massacres lá cometidos.

"Não entendo quando representantes religiosos da Rússia dizem que estão fielmente autorizando os soldados a matar ucranianos", disse o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em entrevista à revista americana The Atlantic, dias antes da Semana Santa. Pior: "Não consigo entender como um país cristão, a Federação Russa, com a maior comunidade ortodoxa do mundo, estará matando pessoas nestes dias. Este não é um comportamento cristão, como eu o entendo. Na Páscoa, eles matarão e serão mortos."

Zelensky se referia sobretudo a Cirilo ("Kirill"), o Patriarca pró-Putin da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) que, no Domingo de Ramos, havia pedido a união do povo às autoridades, em prol da "capacidade de repelir inimigos tanto externos quanto internos". Em sermões televisionados, ele já vinha endossando a narrativa do Kremlin de que a guerra é uma luta pelos ideais conservadores da igreja contra um mundo exterior imoral.

"O Patriarca Cirilo abençoou o Exército e deu sua bênção à guerra. Não foi apenas ele, mas a maioria dos padres do Patriarcado de Moscou, incluindo alguns que têm até raízes na Ucrânia. Fiquei em choque", disse à BBC o padre Nicolay Pluzhnik, que pertencia, como a maioria dos clérigos do nordeste ucraniano, ao ramo da IOR sob liderança moscovita. "Quando os ouço dizer que estão nos protegendo e travando uma 'Guerra Santa', acho que ou são cegos, ou não estão servindo a Deus, mas ao diabo. Nós estávamos vivendo pacificamente até que eles [soldados russos] vieram. Mas longe de nos proteger, eles bombardearam, torturaram e mataram", constatou Pluzhnik.

Ele se inscreveu na Igreja Ortodoxa Ucraniana (IOU), independente desde 2019 - em movimento não reconhecido pela Rússia, claro - e disse que muitos padres que seguiam Cirilo estão fazendo o mesmo em razão da posição bélica do chefe. Cerca de 400 deles, inclusive, assinaram petição online denunciando por "crimes morais" o líder da IOR ao Conselho de Primazes das Igrejas Orientais Antigas, o mais alto tribunal ortodoxo.

"Estamos testemunhando as ações brutais do Exército russo contra o povo ucraniano, aprovadas pelo Patriarca Cirilo. Como sacerdotes da Igreja e como simples cristãos, sempre estivemos e sempre estaremos com nosso povo, com aqueles que sofrem e precisam de ajuda", diz o comunicado. Os autores apelam ao Conselho para "examinar as declarações públicas de Cirilo sobre a guerra contra a Ucrânia" e "avaliá-las à luz das Sagradas Escrituras e da Sagrada Tradição da Igreja".

2.

Eu, Felipe, também avalio o adesismo do Patriarca de Moscou à luz do livro Todos os homens do Kremlin - Os bastidores do poder na Rússia de Vladimir Putin, publicado em 2016 por Mikhail Zygar, ex-editor-chefe da única emissora de TV independente do país, a TV Rain (Dozhd), que veio a ser retirada do ar em 3 de março de 2022, após receber pressões por criticar o Kremlin e ainda exibir a mensagem de "Não à guerra".

"A estreita relação entre Igreja e Estado começou no final do período soviético", explica o autor. "No início da década de 1990, quando os arquivos secretos da KGB vieram à tona, uma comissão especial publicou trechos de documentos internos que revelavam que quase todos os altos escalões da Igreja pareciam ter colaborado com a KGB. Entre os possíveis agentes do serviço de inteligência estariam o Patriarca Aleixo II (apelido 'Drosdov') e seu sucessor, o Patriarca Cirilo (apelido 'Mikhailov'). O patriarca nunca disse nada sobre essas informações, tampouco os representantes da Igreja."

Diretor da FSB (sucessora da KGB como Serviço Federal de Segurança) em 1998 e 1999, Putin foi então escolhido como sucessor de Boris Ieltsin pela sua Família, assim designada pelos jornalistas da época, com "F" maiúsculo, "para sugerir que os queridos e protegidos do presidente tinham uma influência especial e muitas vezes desproporcional nos assuntos do Estado e talvez até nos negócios". Desde seu primeiro mandato presidencial, conta Zygar, "Putin se envolveu muito na política da Igreja", tendo iniciado em 2003 e consolidado em 2007 o processo de unificação da IOR com a chamada IOR do Exterior, "restaurando o elo canônico entre elas".

Eleito em 2009, quando Putin já estava no poder havia dez anos, "Cirilo era membro de longa data da elite burocrática. Além disso, nas palavras da administração presidencial, ele 'demonstrava uma atividade sem precedentes', ou seja, estava pronto para ajudar o Kremlin a alcançar seus objetivos políticos. A ortodoxia estava no caminho certo para se tornar a ideologia oficial do Estado e um meio de consolidar o eleitorado de Putin".

Em 2012, em seu discurso anual à Assembleia Federal, Putin declarou: "Chateia-me falar sobre isso, mas sinto que é meu dever. A sociedade russa atual carece de um 'fecho espiritual'." Essa expressão um tanto arcaica acabou se tornando o conceito-chave para seu terceiro mandato como presidente, segundo Zygar. Usada para descrever o efeito unificador da igreja sobre o povo russo, ela "pode ter sido pensada pela administração presidencial, mas a Igreja a adotou com gosto".

Aparentemente, o gosto de seu líder pelo escambo. "Durante o terceiro mandato de Putin, o Patriarca Cirilo adquiriu uma influência política até então inédita. Ele tinha acesso a Putin a qualquer hora e podia nomear quem quisesse para os altos cargos. Em 2015, por exemplo, a pedido dele, o ministro da Cultura demitiu o diretor do Teatro de Ópera e Balé de Novosibirsk por encenar uma versão profana de Tannhäuser, de Wagner. O candidato preferido do patriarca foi devidamente nomeado para o cargo."

Embora assessores do presidente enfatizem sua defesa de valores tradicionais como "Deus, família e propriedade", colocando a Ortodoxia "em oposição ao mundo ocidental", o depoimento mais preciso sobre o tema é o do banqueiro Serguei Pugachev, que tinha conexões com a Família e foi quem apresentou a Putin a hierarquia da IOR, anos antes de mudar-se para Londres, virar alvo do regime russo e radicar-se na França.

"Pugachev diz que o fascínio de Putin pela Igreja era bem racional. Para o presidente, a Ortodoxia era a pura encarnação da ideia nacional, mas com uma capacidade muito maior de unificar o povo do que a de qualquer partido político. De acordo com pesquisas, 80% do povo russo não entendem nada sobre ortodoxia e não leem a Bíblia ou outros textos religiosos, mas se consideram cristãos ortodoxos."

Em linhas gerais, eu diria que a pré-disposição do povo a identificar-se com a roupagem de uma tradição bem vista na sociedade é maior que sua disposição para assimilar os conteúdos e valores milenares dela. Assim, mesmo que o teor da tradição seja contrário a orientações de um líder contemporâneo da instituição correspondente, a massa que se identifica com ela tende a seguir o líder, não os conteúdos e valores milenares, a menos que a cultura ambiente ou iniciativas de terceiros tenham força e capilaridade suficientes para desmascarar o impostor aos olhos do povo ou de quem possa puni-lo.

Como Putin censura as fontes independentes de informação na Rússia e manda prender quem ousa contestar as narrativas do Kremlin, a cultura ambiente não oferece rotas de libertação mental, enquanto as iniciativas de terceiros ficam restritas a organismos internacionais, cujos processos são lentos e raramente levam à interrupção dos danos causados por um autocrata ambicioso e sua máquina de propaganda e guerra.

Resultado: uma vez incorporados às narrativas oficiais, os elementos religiosos turbinam o nacionalismo pretensamente cristão até o cúmulo da abordagem messiânica - para não dizer terrorista - do destino do país. Em seu projeto de reincorporar as ex-repúblicas soviéticas, Putin disse que a Ucrânia não é só "parte inalienável" da história e da cultura da Rússia, mas também seu "espaço espiritual". "O que está acontecendo hoje é muito mais importante do que a política", disse Cirilo em março. "Estamos falando sobre a salvação humana, sobre onde a humanidade vai acabar e de qual lado de Deus, o Salvador." Na verdade, estamos falando sobre assassinatos de civis ucranianos.

Zelensky lamentou que "mesmo aquela pequena parcela de pessoas inteligentes" com as quais conviveu na Rússia "começou a viver nessa bolha informacional". "É o vírus norte-coreano. As pessoas estão recebendo mensagens integradas absolutamente verticais. Putin convidou as pessoas para esse bunker de informações, sem o conhecimento delas, e elas moram lá." O presidente da Ucrânia também criticou a demonização de seu povo: "A maneira como eles dizem que estamos comendo pessoas aqui, que temos pombos assassinos, armas biológicas especiais… Eles fazem vídeos, criam conteúdo e mostram pássaros ucranianos supostamente atacando seus aviões."

Para Zelensky, os russos não precisam apenas de acesso aos fatos; eles precisam de ajuda para entender sua própria história, o que fizeram com seus vizinhos. No momento, segundo o presidente, "eles têm medo de admitir a culpa", como "alcoólatras [que] não admitem que são alcoólatras". Se quiserem se recuperar, "têm que aprender a aceitar a verdade". Os russos precisam de "líderes que possam assumir e dizer: 'Sim, fizemos isso.' Foi assim que funcionou na Alemanha", depois das atrocidades nazistas de Hitler.

Ninguém disse, porém, que vai ser fácil furar essa bolha.

3.

Na República bananeira do Brasil, não há plano de invadir outros países, de modo que o chefe da Família Bolsonaro, com "F" maiúsculo, busca o "fecho espiritual" supostamente cristão para derrotar o chefe da Família Lula da Silva, que facilitou a vida do atual presidente ao defender a legalização do aborto - apesar do posterior recuo, quando sentiu que perderia eleitores evangélicos na mira dos marqueteiros do PT.

Depois de perdoar dívidas de igrejas e dar acesso às verbas da Educação a dois pastores aliados, para que os beneficiários de todos os escambos façam sua propaganda eleitoral a fieis cativados pela roupagem cristã, Bolsonaro liderou a motociata "Acelera para Cristo", na rebatizada Sexta-Feira da Paixão Política. A tradição do cristianismo recomenda oração, jejum e abstinência na data da Crucificação, mas o bolsonarismo prefere a balbúrdia com dinheiro público, em favor do culto à personalidade do chefe.

Durante seu governo, o PT instrumentalizava órgãos como o Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para conferir às narrativas petistas a autoridade técnica e moral que lhes faltava, como registrei em 2015; ao passo que Bolsonaro promove manifestações profanas para disparar hipocrisias sobre Deus, Família e Liberdade, em alegada oposição ao lulismo.

O mensalão virou orçamento secreto, o petrolão deu lugar ao bolsolão do MEC, os financiamentos de ditaduras de esquerda foram substituídos pela emulação do ataque trumpista ao sistema eleitoral e pela solidariedade à Rússia imperialista de Putin; mas os propagandistas lulistas e bolsonaristas, seja em instituições religiosas, seja em veículos que praticam a censura velada a vozes dissonantes, buscam manter as massas em suas respectivas bolhas, onde nada mais existe senão um "nós" messiânico contra um "eles" demoníaco. Enquanto elas não se rompem, o povo brasileiro, como o russo, padece espiritualmente da profunda necessidade de acreditar em lideranças apodrecidas.