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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Viúvo de Trump, Brasil de Bolsonaro flerta com o petropopulismo de Chávez

Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro participa de evento em Brasília Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

25/02/2021 04h00

Há algumas lições consideradas elementares quando o assunto é o estudo de política internacional. A primeira delas é a noção de que os países não possuem amigos, mas interesses. A segunda nos lembra que nada pode ser mais arriscado, em termos estratégicos, do que privilegiar alianças entre governos em vez de alianças entre Estados.

O Brasil de Bolsonaro parece ter ignorado ambas. Ao buscar um alinhamento automático com o trumpismo - e não com os Estados Unidos - vulnerabilizou-se. Além de ter conquistado muito pouco do ponto de vista pragmático das relações bilaterais, colhe agora os frutos de estar associado a uma narrativa perdedora.

O bolsonarismo mimetizou o trumpismo enquanto pôde. Importou dos Estados Unidos forma e conteúdo. Enquanto surfava uma onda e desfrutava, ainda que oportunamente, dos resultados de curto prazo, ignorou uma variável importante: a diferença brutal de "estoque de poder" de cada um dos países.

Em 1991 o professor de Relações Internacionais Joseph Smith publicou o livro "Unequal Giants". Nesta obra, ele estuda o papel dos Estados Unidos na derrubada do Império brasileiro, ocorrida em 1889. O autor questiona a premissa de que os dois países sempre foram "amigos e aliados naturais".

Reconstrói, já nos primeiros anos da República brasileira, um relacionamento marcado não só pela cooperação, mas também pelo conflito, e traz à luz algo fundamental: a ideia de que uma relação de igualdade sempre teve muito mais aceitação no Brasil do que nos Estados Unidos.

Na prática, ele argumenta que trata-se de uma construção que serviu às ambições e vaidades da elite brasileira enquanto forneceu aos Estados Unidos meios de lidar com a América Latina. Trinta anos depois, em 2021, "Unequal Giants" permanece atual. No Brasil, parece que seguimos alimentando, por deslumbramento ou conveniência, a mesma narrativa de falsa simetria, ignorando os potencias efeitos colaterais que isso nos traz.

O Brasil não é como os Estados Unidos e, na ausência do expressivo volume de poder militar e econômico típico das superpotências, acaba refém de sua própria reputação. Por essa razão defendeu, ao longo de sua história diplomática, caminhos multilaterais. Para o Brasil, agir em grupo e ser visto como um líder vocal legítimo, especialmente no mundo em desenvolvimento, não é questão de ideologia, mas de sobrevivência dentro de um sistema potencialmente competitivo e hostil.

Impactado pela desvalorização do real e a retração do PIB, dados do FMI sugerem que o Brasil deixou de ser, em 2020, uma das dez maiores economias do mundo, depois de ser ultrapassado por países como Coreia do Sul, Canadá e Rússia. Em outro ranking, o de desigualdade, o Brasil figura como o nono mais desigual do planeta, segundo dados do Banco Mundial.

Nas instâncias multilaterais acumulam-se notícias que reportam o constrangimento de nosso corpo diplomático. O Brasil passou a patrocinar, em reuniões oficiais, proposições de países que não demonstram apreço pelos valores democráticos. Tem sido visto como pária em fóruns de discussão sobre meio-ambiente e direitos humanos. Também é considerado um mau exemplo na governança da pandemia de COVID-19. Ficou estigmatizado pelo negacionismo científico e por se colocar como porta voz de um anti-globalismo démodé, que inclui traços de radicalismo religioso.

Tudo no Brasil cheira mofo. A política de retrovisor nos transporta para a agenda ambiental dos anos 1970 e para um tipo de déjà-vu de concepções e resultados econômicos do passado. Sem as costas largas de Trump e, com novos adultos na sala, vemos o nosso prestígio internacional derreter. O resultado: ninguém quer sair na foto com o Brasil.

Enquanto isso, viúvo do trumpismo, o governo brasileiro ensaia um flerte com outra dinastia política: o chavismo. Diante do aumento da pobreza, com as expectativas de inflação crescentes, desemprego recorde e, no contexto de uma administração dividida e chafurdada em denúncias de corrupção familiar, os líderes políticos, direto de Brasília, vão misturando alguns ingredientes conhecidos: populismo, nacionalismo, corporativismo, conspiracionismo e autoritarismo. Também já podemos incluir nessa conta a utilização intempestiva de militares no comando de empresas petrolíferas e disputas em torno dos preços de combustíveis para atender a projetos políticos.

Parece bom?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL