PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro não só envergonha o Brasil como também banaliza o mal no país

O presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU - AFP
O presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU Imagem: AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

22/09/2021 11h23

O discurso de presidente Jair Bolsonaro na 76ª sessão da Assembleia Geral da ONU repercutiu amplamente nos últimos dias. Não porque tenha sido surpreendente, mas pela indignação renovada diante da audácia de Bolsonaro em tratar um prestigiado palco internacional da diplomacia como palanque análogo ao seu refúgio eleitoral conhecido como "cercadinho do Alvorada".

Muitos já foram os veículos que se ocuparam em promover a checagem de fatos da mensagem trazida pelo presidente. Como já se tornou habitual, abundam distorções, mentiras e correlações espúrias na fala de Bolsonaro. Para além de um discurso de perfil conservador, com menções a Deus e à família tradicional, o presidente brasileiro procurou, em mais uma oportunidade, emular inimigos imaginários e incitar o medo de uma ameaça comunista no Brasil.

Na fala delirante, colocou-se como promotor das liberdades do cidadão, muito embora tenha uma visão distorcida e obtusa do que isso significa. Na ONU, Bolsonaro defendeu tratamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19 e descreveu um Brasil responsável em matéria de meio ambiente e cuja economia é pujante e promissora.

Enquanto a comitiva brasileira se hospedava em um hotel com diárias estimadas em R$ 10 mil, nas redes sociais a tentativa era de construir uma narrativa de "homem simples" e antissistema, que come pizza nas calçadas de Manhattan. Em meio a protestos e contestações, testemunhamos a deterioração do "mito dos quadros técnicos": primeiro com Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, protagonizando a deplorável cena do dedo médio para um grupo de manifestantes; depois com Carlos França, ministro das Relações Exteriores, reproduzindo o gesto que representa um dos mais populares símbolos do alinhamento ideológico ao bolsonarismo, a tal "arminha" com as mãos.

Que Bolsonaro é desqualificado para o cargo que ocupa não é novidade alguma. Que a crise do governo é, além de tudo, estética também já sabemos há muito tempo. Apesar disso, não deixa de chocar o fato de que, independente do próprio presidente, existam, no Brasil, quadros que se submetam aos excessos do grupo de radicais que ele representa.

Para além de uma seita que se apoia na distopia de um "Brasil paralelo", o bolsonarismo parece ter também instituído um processo de naturalização de absurdos que faz lembrar o clássico livro "Eichmann em Jerusalém" de Hannah Arendt.

Ao acompanhar o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, Arendt propôs uma reflexão sobre o que chamou de "banalidade do mal". Segundo ela, Eichmann não era um monstro cruel, mas um burocrata convencido de que estava fazendo o seu trabalho de maneira eficiente. Ao humanizá-lo, portanto, a autora revelou o potencial danoso dos indivíduos comuns, de pessoas medíocres preocupadas em cumprir ordens.

O mal, nesse sentido, não necessariamente deriva de personalidades diabólicas, mas da superficialidade do pensar, do descaso com a virtude e da falta de problematização a respeito de ações cotidianas, muitas vezes automatizadas.

Nos termos de Arendt, o mal pode não ser essencialmente movido por ódio, mas por uma "extraordinária aplicação em obter progressos pessoais" por parte de certos agentes. Ele é alimentado pela incapacidade de refletir, pela alienação, e a partir de uma profunda "crise de consciência" dos indivíduos. O mal reside na indiferença e na cumplicidade, na inércia e na passividade.

É verdade que Bolsonaro envergonhou o Brasil na ONU e diante do mundo, mas essa, infelizmente, não é a pior parte de sua ida à Nova York. Esse foi mais um capítulo em que aqueles que o cercam e também as lideranças que procuram normalizar seus excessos corriqueiros banalizaram o mal no Brasil. E isso é muito grave.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL