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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem legitimidade, Brasil vai ao encontro do G20 vender fumaça

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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

28/10/2021 04h00

Nos próximos dias, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), acompanhado de ministros e secretários, participará do encontro do G20 em Roma, na Itália.

A expectativa é que as lideranças dos 20 países mais ricos do mundo discutam três temas prioritários: a retomada econômica pós-pandemia, as mudanças climáticas e os desafios relacionados à agenda de saúde pública global.

Ao falar em nome do governo brasileiro, o secretário de Comércio Exterior do Ministério de Relações Exteriores, embaixador Sarquis José Buainain Sarquis disse, em entrevista recente, que o Brasil deverá tratar fundamentalmente de aspectos ligados a vacinas, comércio, meio ambiente e desenvolvimento durante o encontro.

Na primeira chave, há expectativas de que defenda o acesso ampliado de imunizantes contra covid-19 para países em condição de maior vulnerabilidade e a diversificação da capacidade de produção de vacinas no sul global.

Na segunda, o Brasil deve reforçar a defesa do livre comércio e criticar programas nacionais ligados a subsídios agrícolas, principalmente praticados por Estados Unidos, países europeus, China e Índia. O argumento do governo é que eles distorcem artificialmente os preços dos produtos, afetando a competitividade e comprometendo o abastecimento e a segurança alimentar mundo afora.

Na terceira frente, o governo brasileiro deve favorecer a discussão sobre fontes energéticas renováveis e programas sustentáveis de desenvolvimento. Também deve defender metas de redução de emissão de carbono visando o controle do aquecimento global. Vale mencionar que a cúpula do G20 coincide com o início da COP26, em Glasgow, no Reino Unido.

Por fim, membros do governo alegam que a delegação brasileira apresentará um olhar otimista sobre as condições macroeconômicas do país e ligadas à inclusão social, além de advogar por ajustes tributários entre os países e por maiores investimentos no Brasil, sobretudo voltados à infraestrutura.

Todo esse cardápio viria em boa hora. São temas importantes e que colocariam o Brasil no lugar onde gostaríamos de vê-lo. O problema, no entanto, é que a pauta do governo para o encontro do G20 carece de legitimidade. Mais do que isso, abre espaço para que o Brasil seja apontado como um país que, de novo, não se pode levar a sério.

Não basta ensaiar um discurso sobre "o que a comunidade internacional quer ouvir". É preciso que as propostas encontrem lastro na realidade. Que repousem sobre compromissos concretos, para gerar quaisquer efeitos positivos.

A realidade vai despir o Brasil e nos deixar expostos:

  • Como falar em incentivo à imunização se o presidente do Brasil será o único líder do grupo a não ter tomado a vacina contra a covid-19?
  • Como falar em competitividade no comércio se fechamos os olhos para cláusulas sociais e ambientais e as modificações produtivas delas decorrentes?
  • Como falar em sustentabilidade diante dos recordes sucessivos de avanço da destruição registrados sob a atual gestão?
  • Como falar em ambiente de negócios e atração de investimentos quando vemos uma crise monetária, fiscal e cambial corroendo o equilíbrio alcançado com a implementação do Plano Real?

A situação do Brasil diante do encontro do G20 é, no mínimo, constrangedora.

Nunca fez tanto sentido dizer que "quem tem boca vai a Roma". Para além das narrativas fantasiosas que o governo brasileiro tenta promover, há muita gente bem informada no G20.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL