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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No século 21, tensões entre EUA e China não configuram nova Guerra Fria

Joe Biden, presidente dos EUA, conversa virtualmente com o presidente da China, Xi Jinping - Mandel Ngan/AFP
Joe Biden, presidente dos EUA, conversa virtualmente com o presidente da China, Xi Jinping Imagem: Mandel Ngan/AFP
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

18/11/2021 04h00Atualizada em 19/11/2021 14h47

Na última segunda-feira (15), os presidentes Joe Biden, dos Estados Unidos, e Xi Jinping, da China, reuniram-se em uma cúpula virtual para tratar das relações bilaterais. O objetivo principal do encontro, nas palavras do próprio líder norte-americano, era garantir que "a competição entre os países não se transformasse em conflito".

As relações entre os dois países são historicamente delicadas. Nos primeiros anos do século 21, a relação com a China viveu diferentes fases. Começou do "engajamento construtivo" de Clinton ao "competidor estratégico" de Bush filho, passando pela tentativa de moldar Pequim como um "responsible stakeholder" (algo como parte interessada responsável, na tradução).

Depois veio a fase do "strategic reassurance" (garantia estratégica) e das preocupações que culminaram na obsessão de Obama em construir uma política externa que tivesse como foco um "pivô para a Ásia". No período de Trump, por sua vez, as diferenças ganharam novo momentum materializando-se na intensificação da guerra comercial e em acusações sobre as origens da pandemia de coronavírus.

Sob Biden, a predisposição em tratar a China como um rival tem constituído, como já falamos nesta coluna anteriormente, um dos maiores pontos de continuidade em relação ao antecessor. Tanto por razões eleitorais e de consumo doméstico junto da opinião pública norte-americana, quanto por razões estratégicas ligadas aos anseios de uma transição hegemônica, as provocações e acusações mútuas persistem e ganham eco.

As diferenças entre os dois países são concretas e merecem atenção. Repousam sobre mudanças relacionadas às percepções mútuas de ameaça e oscilam de acordo com a identificação de potenciais ganhos compartilhados em caso de colaboração. Tendem a encontrar menores pontos de atrito quando as divergências versam apenas sobre assuntos comerciais, mas sem envolvimento tecnológico e/ou militar.

Também dependem da predisposição de cada um dos dois países em avançar sobre assuntos políticos que sejam sensíveis ao outro. Por fim, resvalam em como percebem-se do ponto de vista da demarcação de uma agenda internacional pautada por valores.

Apesar disso tudo, não deixa de causar incômodo a recorrente tentativa de traçar comparativos entre essas relações com a China e a realidade da Guerra Fria, experimentada entre Estados Unidos e União Soviética durante o século 20. O paralelo forjado tem levado intelectuais a público, como foi o caso do professor Joseph Nye no The New York Times recentemente. Também estimulou a publicação da mais nova edição da revista Foreign Affairs, que fala em "mundo dividido".

O debate é bem-vindo e as analogias históricas certamente são úteis, em método e substância, para diversas finalidades. Nesse caso, porém, para além de um jargão carregado de lugares-comuns, esse tipo de referência costuma, na maior parte das vezes, revelar um modelo de análise anacrônico e preguiçoso.

Por variadas razões, a relação Estados Unidos-China pouco tem em comum com a realidade da Guerra Fria:

  • a distribuição de poder no mundo de hoje em nada se assemelha com a bipolaridade de outrora;
  • a China não se coloca como uma alternativa ideológica aos Estados Unidos;
  • a competição, no campo militar, traz desafios estruturalmente distintos (estamos preocupados com a capilaridade de ameaças cyber, para além dos desafios nucleares);
  • os fluxos da globalização, que incluem de pessoas às telecomunicações, passando por fenômenos que afetam coletivamente a humanidade, como pandemias, o aquecimento global ou migrações são, agora, uma realidade inexorável; por fim,
  • não havia, entre Estados Unidos e União Soviética, a dependência econômica que há, hoje, entre Estados Unidos e China, seja em função da dispersão das cadeias globais de produção, dos fluxos de comércio ou da concentração de títulos da dívida pública norte-americana.

Precisamos virar, definitivamente, essa página do Guerra Fria. Para além do discurso de palanque, mesmo os oficiais norte-americanos sabem disso. Não à toa Jake Sullivan, Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, insiste publicamente no termo "coexistência" em vez de "contenção". São novos tempos.