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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Prevista para junho, reunião bilateral convém mais a Bolsonaro que a Biden

Os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil) e Joe Biden (EUA) - AFP e Divulgação
Os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil) e Joe Biden (EUA) Imagem: AFP e Divulgação
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

27/05/2022 12h25Atualizada em 27/05/2022 14h32

Nos últimos dias, temos acompanhado a circulação de notícias envolvendo a confirmação de uma reunião entre os presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden. Será o primeiro contato presencial entre ambos, depois de uma série de desencontros e incômodos mútuos.

O evento deve acontecer entre os dias 6 e 10 de junho, quando os líderes dos dois países estarão em Los Angeles, nos Estados Unidos, para participar da Cúpula das Américas, uma conferência organizada pela Organização dos Estados Americanos, de tempos em tempos, com vistas a reunir os chefes de Estado do continente para debater temas de interesse da região.

A relação com o hemisfério ocidental não tem sido prioritária para o governo norte-americano já há muito tempo. Com foco em problemas domésticos e em outras partes do mundo, como o Oriente Médio e a Ásia, as últimas administrações têm mantido políticas esporádicas para as Américas, geralmente proporcionais à percepção dos riscos de segurança que identificam para si, com ênfase em assuntos migratórios ou ligados ao combate a crimes transnacionais, por exemplo. Na gestão Biden, isso não tem sido diferente.

Para o governo brasileiro, por outro lado, as relações com os Estados Unidos são consideradas centrais e prioritárias. Sem surpresa, portanto, há meses a diplomacia brasileira trabalha, nos bastidores, para viabilizar esse encontro. Para além dos interesses nacionais objetivos, "sair na foto" com Joe Biden é particularmente conveniente ao governo Bolsonaro, porque permite ao presidente capitalizar politicamente o momento e contestar a narrativa de isolamento internacional do Brasil no contexto pré-eleitoral.

Entre os tópicos de convergência que podem orientar o encontro estão a dinamização do comércio e do investimento entre os dois países, discussões envolvendo cooperação no setor militar e de defesa e, quem sabe, uma agenda de contrabalanço e contenção da presença chinesa na América Latina. Apesar das inúmeras diferenças que os líderes possuem entre si, esses são temas nos quais as duas administrações têm visões compartilhadas e um canal aberto para o diálogo.

Por outro lado, no campo das divergências e de possíveis ruídos, temos questões envolvendo meio ambiente, democracia e a posição dos governos a respeito da crise internacional do momento: a guerra entre Rússia e Ucrânia. Não surpreenderia caso o líder norte-americano aproveitasse a oportunidade para elevar a pressão e as cobranças sobre o Brasil nessas searas.

De modo geral, o mais provável é que a reunião seja marcada por um tom diplomático, com discurso pautado no histórico positivo e na relevância estratégica das relações bilaterais. Diversos grupos, incluindo os pró-business, pressionarão as comitivas para um diálogo pró continuidade e orientado por interesses pragmáticos.

Para além disso, na prática, também é esperado que não haja grandes decisões ou compromissos derivados desse encontro. Se, por um lado, os norte-americanos veem com bons olhos a predisposição do governo Bolsonaro em uma agenda de alinhamento com os Estados Unidos, por outro, eles têm se mantido vigilantes sobre o processo de contestação das instituições por parte do governo brasileiro. Nesse sentido, tendem a acompanhar os próximos meses com relativo cuidado. A promessa é de "banho maria" até as definições que virão do processo eleitoral brasileiro dos próximos meses.