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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Preocupação dos EUA com estabilidade marca conversa de Biden e Xi Jinping

Os presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Joe Biden, conversaram pelo telefone hoje - Nicolas Asfouri e Nicholas Kamm/AFP
Os presidentes da China, Xi Jinping, e dos Estados Unidos, Joe Biden, conversaram pelo telefone hoje Imagem: Nicolas Asfouri e Nicholas Kamm/AFP
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

28/07/2022 14h32

Ocorreu hoje (28), pelo telefone, mais uma conversa entre os presidentes Joe Biden e Xi Jinping. O diálogo se deu no contexto de grande sensibilidade nas relações bilaterais, que, para muitos especialistas, encontram-se em seu pior momento em décadas.

No cerne das discussões, três principais pautas: 1) a guerra entre Rússia e Ucrânia; 2) a competição econômica entre Estados Unidos e China; e 3) as tensões em relação à Taiwan. No centro das preocupações, sobretudo do lado norte-americano, uma única meta: garantir o mínimo de estabilidade em face do já atribulado cenário global.

No que tange o primeiro e o segundo tópicos, está claro que Biden tem interesse em marcar posição, mas com cautela. Embora os interesses dos países sejam divergentes nessas searas, o foco do presidente norte-americano está, de acordo com seus próprios porta-vozes, em manter abertas as linhas de comunicação e, com isso, evitar mal entendidos ou eventuais erros de cálculo que possam desembocar em confrontos desnecessários e potencialmente prejudiciais ao governo democrata.

Do ponto de vista geopolítico, os Estados Unidos não podem prescindir da China para lidar com a Rússia. Precisam, portanto, investir em pequenos gestos e manter ativo o relacionamento interpessoal entre os seus líderes, bem como o canal de diálogo, principalmente considerando que, em alguns meses, o Partido Comunista Chinês deve conduzir Xi Jinping a um terceiro mandato.

Do ponto de vista econômico, Biden precisa encontrar meios de contornar as pressões que tem sofrido e que estão especialmente impulsionadas pelas eleições legislativas de novembro. A maior inflação em 40 anos e um dos piores índices de popularidade da História do país já empurraram o presidente norte-americano ao diálogo com a Venezuela, a viagem para a Arábia Saudita e, agora, levam Biden a cogitar o afrouxamento de sanções contra a China. Pessoas próximas ao presidente afirmam que ele está avaliando as possibilidade de suspender algumas tarifas impostas por Trump contra Pequim para tentar contornar a pressão inflacionária nos Estados Unidos.

No que diz respeito ao terceiro tópico, Biden tenta gerenciar a crise causada por uma eventual viagem da presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, à Taiwan. A visita, programa originalmente para abril, foi adiada porque a congressista testou positivo para covid-19 naquela ocasião. Em resposta à possível viagem, o governo chinês chegou a dizer que, caso ocorresse, ela envolveria "consequências".

É importante lembrar que Taiwan é governado de forma independente desde 1949, mas que a China considera a região parte de seu território. A administração de Pequim atua, há décadas, para que a província dissidente não alcance a independência, o que afetaria a unidade territorial da China. Não à toa a "One China Policy" é um dos mantras mais importantes da política externa chinesa. Todos os países que desejam manter relações diplomáticas ou comerciais com a China precisam reconhecer que Tibete, Hong Kong, Macau, Xinjiang e Taiwan estão sob o comando de Pequim.

Nesse momento, não interessa a Biden elevar o tom em relação ao tema. O presidente tem problemas internos mais urgentes para endereçar e um novo foco de crise geopolítica na Ásia poderia criar efeitos danosos para seu governo no curto prazo. Os impactos indesejados são tantos que até mesmo o Pentágono chegou a desincentivar a viagem de Pelosi à região por considerar os riscos de segurança demasiado elevados. Há quem diga que, caso a visita ocorra, é possível que o governo chinês tente declarar uma zona de exclusão aérea sobre Taiwan, o que poderia gerar um efeito de reações em cascata sob as quais se poderia perder o controle.

Como já temos insistido há algum tempo, trata-se de mais um capítulo em que a sobrevivência política, no campo doméstico, prevalece, acima de tudo, no trato das questões internacionais.