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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De olho na política doméstica, China e EUA dançam com o caos

Nancy Pelosi e Xi Jinping: visita de presidente da Câmara dos EUA a Taiwan gerou reação forte da China - Reuters/Montagem UOL
Nancy Pelosi e Xi Jinping: visita de presidente da Câmara dos EUA a Taiwan gerou reação forte da China Imagem: Reuters/Montagem UOL
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

05/08/2022 12h37

Acompanhamos, ao longo dos últimos dias, os desdobramentos da viagem de Nancy Pelosi a Taiwan. Na semana passada, aqui na coluna, já havíamos discutido esse tema, quando da conversa telefônica entre os presidentes Joe Biden e Xi Jinping.

A visita de Pelosi ocorreu apesar de ter sido publicamente desencorajada por Biden e por lideranças ligadas ao campo de segurança. Apesar dos riscos envolvidos, foi mantida porque a viagem interessava ao governo norte-americano para projetar força externa e reforçar o papel internacional dos Estados Unidos, sobretudo como resposta à aliança sino-russa no contexto da Guerra da Ucrânia.

A consistente aproximação entre Pequim e Moscou inaugurou um novo capítulo no processo de transição hegemônica. Não apenas colocou em evidência o declínio relativo dos Estados Unidos e sua incapacidade de garantir a estabilidade internacional unilateralmente, como também desnudou, de forma explícita, o interesse de China e Rússia em contestar a ordem vigente e adotar, de forma inédita, um tom abertamente revisionista.

O que não se pode perder de vista em uma situação como essa é que, para além das questões estruturais profundas que se demarcam pouco a pouco, há, embutido nas ações e reações de Estados Unidos e China, um jogo de cena que se desenrola com vistas a alimentar interesses políticos domésticos de mais curto prazo.

No caso norte-americano, o desafio é encontrar meios para desviar das cobranças internas e dos danos causados pela pressão inflacionária. Nesse sentido, duas dimensões merecem especial atenção. Ao visitar Taiwan, Pelosi se projeta como uma liderança democrata independente da Casa Branca, disposta, inclusive, a contrariar as recomendações do presidente —presidente esse que enfrenta severa crise de popularidade.

Ao mesmo tempo, sem se comprometer pessoalmente e exercendo o papel do "good cop" junto às autoridades chinesas, Biden mira o apoio para sua agenda de valores em política externa nas ambiguidades dos posicionamentos de Pelosi, que ora fala por si, ora fala em nome dos Estados Unidos. Usa a oposição à China como uma cola poderosa que constrói coesão junto à opinião pública do país e busca apoio bipartidário no contexto de um país polarizado, tal como tentou fazer no caso da Ucrânia.

Reforçar a narrativa da China como "um inimigo comum a ser combatido" contribui para o reforço psicológico da importância dos Estados Unidos no mundo, além de facilitar a terceirização de responsabilidades, no sentido de abrir espaço para que se reproduza a lógica de que as mazelas pelas quais passam os norte-americanos vêm de fora.

Biden tem como meta, no mínimo, não atrapalhar seu partido nas eleições legislativas de meio de mandato, que ocorrem em novembro de 2022. Caso perca o controle do Congresso, o presidente sabe que terá dificuldades em criar um legado positivo que seja útil para o pleito presidencial de 2024.

No caso chinês, a dinâmica doméstica também é fundamental para situar as duras respostas dadas à visita de Pelosi por Pequim, que vão de restrições comerciais à exercícios militares sem precedentes. Acontecerá, em breve, o encontro do Partido Comunista que deve reconduzir Xi para um terceiro mandato como presidente. Isso ocorre no momento em que o governo chinês se debate com os revezes da política de zero-covid, enfrenta uma importante crise de crescimento econômico, que é marcada por dificuldades no setor imobiliário, de atração de investimentos e de abastecimento das cadeias de produção, além de ter de lidar com a instabilidade regional provocada pelo conflito no leste europeu e as cobranças internacionais derivadas da relação com a Rússia.

O foco na integridade territorial da China, o apelo ao discurso soberanista e nacionalista, além da reação enérgica contra um competidor estratégico do porte dos Estados Unidos são compreensíveis, portanto, sob a ótica de Xi em defender capital político imediato.

Até o momento, o conjunto de ações e reações que assistimos parecem situados dentro de scripts ajambrados para marcar posição e favorecer domesticamente os líderes de cada país. O problema desse tipo de jogo é que, em política internacional, projetar poder e defender interesses esbarra, quase sempre, em percepções e interpretações, que podem conduzir a erros de cálculo, medidas desproporcionais e eventual perde de controle.

Em um mundo marcado por interdependência e por tantas crises sucessivas e simultâneas, Estados Unidos e China, ao olhar para dentro, dobram a aposta enquanto dançam com o caos.