Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta

Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
Opinião

Brasil-Argentina, uma aliança 'grande demais para acabar'

O conceito de "too big to fail" foi popularizado pelo congressista norte-americano Stewart McKinney durante uma audiência pública nos anos 1980. Traduzido como "grande demais para quebrar", a expressão refere-se à ideia de que certas instituições financeiras, devido ao seu tamanho e importância sistêmica, são consideradas tão cruciais para a estabilidade econômica que sua falência ou colapso teria efeitos catastróficos no sistema financeiro como um todo.

São instituições que geralmente operam em setores estratégicos, exercem influência significativa sobre a economia e mantêm interconexões complexas com outras entidades financeiras. Assim, em muitos casos, governos e autoridades intervêm para resgatá-las de dificuldades, seja por meio de injeções de capital, garantias ou outras medidas, a fim de evitar as ramificações adversas que poderiam resultar de sua falência. Este conceito tem sido objeto de debate, sobretudo depois da crise de 2008, pois levanta questões sobre a responsabilidade moral dos atores políticos diante de certas adversidades cujo poder destrutivo é tão grande que não pode ser ignorado.

É o caso, no campo das relações internacionais, de algumas parcerias e arranjos, como da relação Brasil-Argentina. A lógica de "too big to fail" é útil como analogia aqui no sentido de que, independentemente das mudanças políticas ou de preferências ideológicas que possam ocorrer nesses países, trata-se de uma parceria vital demais para ser negligenciada. Assim como instituições financeiras consideradas "grande demais para quebrar" são essenciais para a estabilidade sistêmica, essa aliança estratégica é central para a estabilidade regional e para o equilíbrio econômico na América do Sul.

Eis o mais recente movimento que reforça essa tese: a mudança de tom e postura do recém-eleito presidente argentino Javier Milei em relação ao Brasil. Milei expressou, em diversas ocasiões, sua desaprovação ao presidente do Brasil, mencionando diretamente o nome de Lula por várias vezes. Em declarações recentes, ele rotulou Lula de "comunista" e de "corrupto". Chegou a dizer, antes da eleição, que, caso vencesse, não se encontraria com Lula. Em entrevista à revista Economist, Milei também caracterizou Lula como um "socialista com vocação totalitária" e afirmou que não teriam assuntos a discutir.

Pouco mais de uma semana depois de eleito, no entanto, Milei escreveu uma carta a Lula convidando-o a para participar dos eventos de sua posse presidencial em 10 de dezembro. Milei destacou a importância desse momento de transição para a Argentina e ressaltou os desafios econômicos e sociais que ambos os países enfrentam. No documento, ele expressou a convicção de que uma mudança efetiva nessas áreas requer a "construção de laços" e "colaboração mútua".

Além disso, a futura chanceler argentina Diana Mondino visitou o Brasil no último fim de semana. Durante a passagem por Brasília Mondino formalizou pessoalmente o convite de Milei e, em conversa com o chanceler Mauro Vieira, surpreendeu ao afirmar que novo governo argentino apoia o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, afastando temores de que Milei pudesse desfazer os esforços do Brasil para fechar o acordo comercial com os europeus ainda esse ano.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e a Argentina é o 3º maior do Brasil. O vínculo político entre os dois países, inaugurado durante o processo de redemocratização na década de 1980, foi um catalisador para o projeto de integração sul-americana, culminando na fundação do MERCOSUL em 1991. A intensificação da integração econômica bilateral tem impulsionado as economias e indústrias de ambos os países, com investimentos brasileiros permeando setores diversos na Argentina, como siderurgia, petróleo, finanças, automóveis, têxteis, calçados, máquinas agrícolas, mineração e construção civil, enquanto o capital argentino também exerce uma presença significativa no Brasil.

A conclusão é óbvia: a manutenção dessa relação transcende perfis individuais, destacando a necessidade de continuidade e comprometimento, independentemente das oscilações políticas, para garantir o desenvolvimento mútuo. Sabemos que ambos os países representam uma força conjunta que abrange uma parcela significativa do território, da população e do produto interno bruto sul-americano. E é assim que fazem os adultos, cientes dos riscos mútuos implicados em ignorar o peso de uma relação complexa como essa, grande demais para acabar.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes