Fernanda Magnotta

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Opinião

Crise Venezuela-Guiana ressurge como estratégia eleitoral de Maduro

A expressão "Wag the Dog," originada nos Estados Unidos no século 19, tem sido amplamente utilizada para descrever estratégias políticas que desviam a atenção do público de questões cruciais para assuntos aparentemente menos centrais, mas que geram grande comoção. Em sua essência, essa tática visa manipular informações, muitas vezes por meio de distrações, para redirecionar o foco das pessoas de certos temas considerados sensíveis para outros igualmente capazes de mobilizar paixões e criar algum tipo de coesão interna.

Poderíamos traduzir livremente a expressão como "o rabo que balança o cachorro". Isso porque, tal estratégia diversionista (que está frequentemente associada ao uso de força militar), sugere que algo aparentemente menos importante (a cauda) controla algo maior e mais relevante (o cachorro). É comumente empregada, ao longo da história, por políticos em meio a escândalos, na esperança de que a sociedade se esqueça de questões controversas e concentre sua atenção em temas construídos como supostamente mais urgentes e/ou vitais.

Não parece exagero dizer que a disputa territorial entre Venezuela e Guiana, centrada na região de Guiana Essequiba, possa ser tratada como uma manifestação contemporânea dessa abordagem. O recente referendo na Venezuela visa redefinir a fronteira, questionando a validade do Laudo Arbitral de Paris de 1899. A Venezuela alega fraude na definição da fronteira e busca movê-la para o leste, fixando-a no rio Essequibo. Por sua vez, a Guiana percebe as ações venezuelanas como provocativas e ilegais, buscando uma resolução diplomática para o conflito. A importância estratégica da região é acentuada pela presença significativa de recursos naturais, incluindo reservas de petróleo, tornando o conflito ainda mais delicado.

A incursão contra a Guiana não é trivial: embora seja antiga e complexa, ganha momentum no contexto em que Nicolás Maduro, presidente venezuelano, tenta fortalecer a sua liderança para a disputa eleitoral prevista para 2024. Em outubro desse ano, Maduro assinou um acordo com a oposição venezuelana se comprometendo a realizar eleições presidenciais competitivas e passíveis de monitoramento por observadores internacionais.

O país, como está amplamente documentado, enfrenta uma crise multifacetada, incluindo escassez de alimentos, alta inflação e migração em massa. Além disso tem um governo acusado de crimes contra a humanidade e violação sistemática de direitos humanos. A economia, fortemente dependente do petróleo, está em declínio acentuado, e a população sofre severas consequências há mais de uma década.

Enquanto observamos os desdobramentos de mais um capítulo na histórica disputa territorial entre os dois países, é crucial manter em mente que estratégias no estilo "Wag the Dog" podem gerar efeitos colaterais muito danosos para a região (incluindo para o Brasil, que faz fronteira com esses territórios), mas principalmente para o próprio povo venezuelano.

Em nome da perpetuidade de projetos de poder, o uso dessa lógica implica em falta de transparência nas ações do governo, o que mina, com o passar do tempo, a confiança pública das pessoas em suas próprias instituições. Além disso, ao se tentar desviar a atenção para questões criadas ou trazidas à tona artificialmente, os líderes políticos tendem a priorizar seus interesses de curto prazo em detrimento das reais necessidades e desafios urgentes ao país. Isso faz com que deixem de priorizar questões estruturais que exigem soluções a longo prazo, alimentando crises persistentes.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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