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Jamil Chade


Brasil "rouba" espaço chinês em mercado americano, constata ONU

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/11/2019 14h00

Um levantamento realizado pela ONU revelou que o Brasil foi beneficiado com um aumento de US$ 450 milhões no primeiro semestre de 2019 para o mercado americano, por conta da guerra comercial entre EUA e China. De acordo com o estudo, produtos brasileiros ocuparam o espaço que, até agora, estava sendo ocupado pela China.

O salto na exportação brasileira, porém, não foi causado pelo setor agrícola, tradicional segmento competitivo do país. De acordo com o levantamento, os ganhos foram gerados principalmente na venda de máquinas, com alta de US$ 191 milhões, contra uma expansão de US$ 129 milhões em produtos químicos e US$ 71 milhões em metais. No setor agrícola, a alta foi de apenas US$ 4 milhões.

Diante das tarifas impostas por Donald Trump contra Pequim, produtos de outras partes do mundo passaram a ser competitivos. Assim, a guerra comercial acabou abrindo mercados inesperados para alguns produtos brasileiros.

O fenômeno não se limitou ao Brasil. Taiwan, de fato, foi quem mais usou da guerra comercial para aumentar em US$ 4,2 bilhões suas vendas para o mercado americano, ocupando o espaço deixado pela China. As vendas mexicanas para o vizinho do Norte tiveram um salto de US$ 3,5 bilhões, contra um aumento de US$ 2,6 bilhões no Vietnã. O mesmo valor foi registrado pela UE, contra US$ 1,1 bilhão para o Canadá.

Olho por olho

Mas os estudos também revelam que a guerra comercial está afetando tanto a economia dos EUA como da China. Desde o início do ano, as barreiras impostas pelo governo Trump foram respondidas com novas taxas impostas por Pequim aos produtos americanos.

O resultado: uma queda no comércio bilateral, preços mais elevados para consumidores.

O estudo revela que são os consumidores americanos quem mais estão pagando pela situação. "Esses resultados servem de alerta global", disse Pamela Coke Hamilton. Segundo ela, não apenas as duas economias perdem. Mas também o cenário internacional é afetado.

No total, as tarifas de 25% impostas pela Casa Branca contra bens chineses afetou US$ 35 bilhões em vendas das empresas da China no primeiro semestre do ano. Mas os dados ainda revelam a competitividade as exportações de Pequim, que mantiveram em 75% dos casos suas vendas ao mercado americano.

Dos US$ 35 bilhões em perdas dos chineses para o mercado americano, grande parte foi ocupado por outros países. No total, exportadores de outras partes do mundo viram suas vendas aumentar em US$ 21 bilhões para o mercado americano.

Apenas US$ 14 bilhões desse espaço aberto foram totalmente abandonados ou ocupados por empresas americanas.

Trump, ao justificar suas barreiras, insiste que elas tem como objetivo beneficiar as empresas locais. Os dados, porém, não revelam isso e apontam que houve uma substituição de exportadores chineses por exportadores de outras partes do mundo.

Jamil Chade