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Jamil Chade


Instabilidade na América do Sul acende alerta internacional

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/11/2019 20h23

A crise na Bolívia acende o alerta internacional sobre a instabilidade na América do Sul e coloca a região no foco de serviços de inteligência e diplomatas pelo mundo. Na cúpula da ONU, governos e entidades estrangeiras, a renúncia de Evo Morales foi acompanhada neste domingo como um sinal de que o continente pode entrar num espiral perigoso de incertezas e de confrontação entre forças conservadoras, progressistas e grupos no poder.

A preocupação de altas fontes dentro das Nações Unidas é de que, com um cenário global de grande tensão, o mundo não poderia se dar ao luxo de ter um novo continente em um momento de forte turbulência.

Mas o temor de capitais europeias é de que os acontecimentos em La Paz tenham sérias consequências, com uma polarização ainda maior entre aqueles líderes regionais que saíram em apoio a Evo Morales e uma rede informal - mas poderosa - da elite militar.

De fato, imediatamente depois do anúncio da renúncia, Caracas, Havana e Lula denunciaram um "golpe de estado" contra o boliviano. Para um analista militar em Bruxelas, por exemplo, a situação de acusações mútuas promete aprofundar a tensão regional.

Os protestos no Equador, a crise profunda na Venezuela, a turbulência social no Chile, a virada política na Argentina e a tensão no Brasil completariam um cenário que levou serviços diplomáticos de agências internacionais a serem convocadas neste domingo de urgência para preparar informes emergenciais para diferentes chefes-de-estado e militares no exterior.

Se a economia boliviana é irrelevante para o restante do mundo, o que se busca saber é a repercussão e impacto no Brasil, Argentina, Venezuela e restante do continente, além do equilíbrio de poder.

Sem entrar no debate se os acontecimentos foram ou não um golpe de estado, analistas de grandes entidades estimam que Morales poderia ser um campo de teste - fragilizado - para uma disputa de poder na região.

Diplomatas no exterior chamaram a atenção para o fato de que a crise na Bolívia se agravou no momento que a polícia nacional retirou seu apoio ao governo. A instituição é uma tradicional porta de infiltração americana.

Uma outra análise colheu informações de que os responsáveis pela ação na Bolívia não contavam que a iniciativa teria um eficácia tão grande, com uma queda relativamente rápida de Morales. O temor de militares fora do continente é de que tal modelo possa "inspirar" outras ações pela região, caso certas forças se sintam ameaçadas.

Serviços de inteligência constatam que, hoje, a rede de contatos entre militares ultraconservadores da América do Sul tem sido intensificada. Mas também é a solidariedade entre forças de esquerda.

Em pelo menos uma capital europeia, diplomatas também destacaram o "erro primário" de Morales ao permitir - ou promover - um deslize grave no processo eleitoral. Num informe, a OEA constatou que a eleição no país no dia 20 de outubro teria inconsistências "contundentes". Era a ocasião esperada por forças contrárias a Evo Morales.

As incertezas não se limitam às análises de governos. Para fontes no setor financeiro na Suíça, a ausência de grandes investidores estrangeiros no leilão do pré-sal, na semana passada, não ocorreu apenas por conta de regras consideradas como pouco atrativas no Brasil.

Parte da hesitação tem uma relação direta com um clima de profunda preocupação com o que pode ocorrer na América do Sul nos próximos meses.

Jamil Chade