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Jamil Chade

Pandemia pode levar 265 milhões à fome

fome; miséria; pobreza; faminto; prato vazio; fila; espera; comida; campo de refugiados - William West/AFP
fome; miséria; pobreza; faminto; prato vazio; fila; espera; comida; campo de refugiados Imagem: William West/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/04/2020 06h47

A crise do coronavírus poderá jogar mais de 265 milhões de pessoas para uma situação de fome. O alerta está sendo publicado nesta terça-feira pela ONU e pela FAO, num informe sobre a desnutrição no mundo em 2019 e as projeções para 2020.

Se no ano passado a estimativa era de 130 milhões de pessoas estavam em uma situação severa de fome. Para 2020, porém, as estimativas apontam para a possibilidade de que esse número dobre, principalmente nos países mais pobres do mundo.

"Covid-19 é potencialmente catastrófico para milhões de pessoas que estão por um fio", disse Arif Husain, economista chefe do Programa Mundial de Alimentação. A entidade prevê que precisa, de forma urgente, US$ 350 milhões para lidar com essa crise. Mas alerta que recebeu apenas um quarto desse valor.

África, Ásia e América Latina devem ser as regiões mais afetadas. Produção em queda, desemprego, perda de renda, queda de exportação, recessão global e crise sanitárias devem ser os principais ingredientes de um cenário considerado como alarmante.

Os dados serão apresentados nesta terça-feira em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e trará um alerta: a crise pode reabrir uma onda de protestos sociais, assim como ocorreu em 2007 e 2008 com a alta no preço de alimentos.

Apesar da crise, governos não conseguiram chegar a um acordo sobre um plano de ação mundial no fim de semana. Numa reunião mantida pelo G-20, o governo americano bloqueou uma declaração final sob a alegação de que não aceitaria o papel central dado para a OMS numa resposta à pandemia.

Venezuela

O informe ainda traz dados específicos sobre a crise em Caracas. Com 9,3 milhões de famintos, a Venezuela passa a ser considerada como uma das quatro maiores crises de desnutrição do mundo, superando países africanos como Etiópia, Sudão do Sul e Nigéria.

A FAO, há seis anos, chegou a dar um prêmio ao governo venezuelano pela redução das taxas da fome no país. Hoje, o cenário é radicalmente diferente e apenas as crises no Iemen, República Democrática do Congo e Afeganistão superam a realidade venezuelana.

Dos 28,5 milhões de habitantes do país, 9,3 milhões precisam de ajuda para se alimentar. Ou seja, 32%. 2,3 milhões deles estão em uma condição severa de insegurança alimentar. 30% das crianças com menos de 5 anos são anêmicas, taxa que chega a 23% entre as mulheres adultas.

60% dos venezuelanos vivem numa situação delicada e precisam avaliar seus gastos com cuidado para garantir que tenham alimentos.

Hoje, o salário mínimo de apenas US$ 7,00 é capaz de comprar apenas 5% da cesta básica, necessária para que uma pessoa possa sobreviver.

Se não bastasse a crise, a FAO alerta que uma colheita abaixo do esperado em 2019 ampliou os problemas.

Entre 2015 e 2020, a Venezuela viu o PIB per capita desabar em 76%. Com uma inflação de 200% ao mês, o resultado em 2019 foi a perda do poder aquisitivo da população em 8000% na compra de alimentos.

Oficialmente, o governo venezuelano não publica dados sobre desnutrição infantil desde 2007.