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Jamil Chade


Pandemia desencadeou tsunami de ódio e ONU pede que líderes mostrem exemplo

Logo da ONU em sede de Nova York - Lucas Jackson
Logo da ONU em sede de Nova York Imagem: Lucas Jackson
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/05/2020 05h14

Num alerta com forte tom de desespero, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou que a pandemia está gerando um "tsunami de ódio e xenofobia", além da criação de bodes expiatórios e ataques contra médicos, enfermeiras e jornalistas. O chefe da diplomacia internacional apelou para um esforço total para "acabar com o discurso do ódio em todo o mundo".

No Brasil, o governo tem lançado ofensas contra jornalistas, enquanto grupos de apoiadores têm atacado enfermeiras e, nas redes sociais, denunciado a origem chinesa do vírus.

A mensagem, divulgada nesta sexta-feira, aponta que a atual crise aprofundou o sentimento contra estrangeiros e que, das redes sociais, o ódio passou para as ruas. Entre os fenômenos estão atos anti-semitas com teses de conspiração, além de ataques contra muçulmanos.

Em alguns países, Guterres aponta que os migrantes e refugiados foram apontados como os culpados pela proliferação do vírus, inclusive com serviço médicos negando acesso aos tratamentos médicos.

Outra dimensão do ódio tem sido os ataques contra idosos. Contra essa população surgiram memes desprezíveis, sugerindo que eles também são os mais dispensáveis.

Ataques

"O vírus não se importa quem somos, onde vivemos, no que acreditamos ou sobre qualquer outra distinção", alertou. "Precisamos de cada grama de solidariedade para enfrentá-la juntos. Mas a pandemia continua a desencadear um tsunami de ódio e xenofobia e bodes expiatórios", afirmou.

Guterres também indicou como "jornalistas, delatores, profissionais de saúde, trabalhadores humanitários e defensores dos direitos humanos estão sendo alvo simplesmente por fazerem seu trabalho".

"Devemos agir agora para fortalecer a imunidade de nossas sociedades contra o vírus do ódio. É por isso que estou apelando hoje para um esforço total para acabar com o discurso do ódio em todo o mundo", apelou.

O chefe da ONU usou o discurso para se dirigir à cúpula política. "Apelo aos líderes políticos para que mostrem solidariedade com todos os membros de suas sociedades e construam e reforcem a coesão social", pediu.

Guterres ainda insiste que instituições educacionais precisam ser "concentrar na alfabetização digital em uma época em que bilhões de jovens estão online - e quando os extremistas estão procurando se aproveitar de audiências cativas e potencialmente desesperadas".

"Convido a mídia, especialmente as empresas de mídia social, a fazer muito mais para sinalizar e, de acordo com as leis internacionais de direitos humanos, remover conteúdos racistas, misóginos e outros conteúdos nocivos", pediu.
"Convido a sociedade civil a fortalecer o contato com pessoas vulneráveis e os atores religiosos a servir de modelo de respeito mútuo", insistiu.

Guterres ainda solicitou que "todos ergam contra o ódio, tratem uns aos outros com dignidade e aproveitem todas as oportunidades para difundir a bondade".

"Ao combater esta pandemia, temos o dever de proteger as pessoas, acabar com o estigma e prevenir a violência. Vamos derrotar o discurso do ódio - e a COVID-19 - juntos", completou.

Jamil Chade