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Jamil Chade


OMS: Erradicação do vírus é "improvável" e novo recorde diário é atingido

Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durate entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/07/2020 13h52

Resumo da notícia

  • Reabertura em meio à transmissão intensa jogará país à estaca zero, alerta agência


Com 12 milhões de casos e um número que mais que dobra em seis semanas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) admite que a erradicação da covid-19 é hoje "improvável". A agência registrou um novo recorde, com 224 mil novos casos em 24 horas. EUA lideraram, com o Brasil em segundo lugar.

Mas acredita que ainda existe a possibilidade de que governos possam controlar a transmissão. Em sua coletiva de imprensa nesta sexta-feira, a agência alerta que governos que estão optando por reabrir suas economias, mesmo diante de uma intensa transmissão da covid-19, correm o sério risco de jogar seus países em "situações difíceis", ver a aceleração de casos e voltar à estaca zero.

Michael Ryan, diretor de operações da agência, comentou a volta de novos casos em locais que abriram suas economias, depois de meses de confinamento. "Era esperado", admitiu o chefe da OMS sobre a subida no número de infecções, principalmente na Europa. "Uma vez que os confinamentos terminaram, havia um risco de voltar onde o vírus está presente", disse. Ryan pede que governos promovam suas aberturas de forma lenta, com etapas.

Mas ele foi claro: "em nosso contexto, é improvável que vamos conseguir erradicar ou eliminar o vírus".

Para Ryan, governos precisam ter a capacidade de isolar novos surtos para impedir que, em locais onde os números são baixos, que uma nova fase da epidemia não seja iniciada.

A OMS, porém, admite que tal medida de reabertura exige "uma parceira de confiança entre comunidades e liderança". "Isso deve ser baseado em honestidade e transparência", insistiu. "Se queremos evitar novas epidemias, precisamos acabar com os pequenos surtos rapidamente", afirmou.

Estaca zero

Mas a grande preocupação da agência está em países como México e Brasil que começam a abrir suas economias, mesmo com elevados números diários de casos e sem um sistema de testes ideal. Segundo Ryan, essa situação deve levar a um aumento ainda maior da pandemia.

O risco, segundo ele, é de que esses países voltem ao ponto que estavam em fevereiro e março, desfazendo todo tipo de ganho que as quarentenas conseguiram atingir. "Aberturas cegas", alerta Ryan, impedem países chegarem onde desejam.

Ryan admite que governos e famílias carentes estão sob pressão, diante do colapso econômico e a perda de renda. "Mas temos de encontrar um forma de equilibrar. Abrir quando se tem a intensificação de casos levará países a uma situação difícil e faz retornar ao início. Isso não será sem consequência", afirmou.

Para a OMS, governos precisam reconhecer a possibilidade de que tenham de reconfinar as pessoas. "Em alguns casos, essa pode ser a única solução", admitiu. Mas o modelo mais adequado poderia ser o de quarentenas localizadas. Para que isso seja possível, porém, testes precisam aumentar.

Ryan ainda falou da necessidade de que governos sejam "honestos" com suas populações sobre os riscos da doença e que informação correta seja passada.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, reconheceu que a crise está levando o mundo "ao limite", especialmente os mais pobres. Para ele, é necessário que haja "liderança", ação agressiva e união nacional.

O chefe da OMS citou como, apesar da crise, países como a Itália, Espanha e Coreia do Sul mostraram que a doença "ainda pode ser colocada sob controle".

Cloroquina e Bolsonaro

Questionado pela coluna, o chefe da OMS voltou a alertar que a agência recomenda que o uso de cloroquina só seja realizada sob intensa supervisão médica e voltou a dizer que não existem sinais de que o remédio reduza a mortalidade.

Desde que anunciou que está contaminado pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro vem postando imagens nas quais ele toma o remédio e diz "confiar" na droga. Ele ainda insistiu que o remédio tem um efeito praticamente imediato, sem qualquer evidência científica para chegar a essa conclusão.

Para Ryan, não há como comentar casos específicos e indicou que cabe ao médico tomar a decisão. Mas voltou a indicar que, do ponto de vista da OMS, as evidências não indicam benefícios para pacientes hospitalizados.

"Mas aí cabe aos médicos. Apenas podemos dizer o que vemos de estudos e cabe às agências reguladoras nacionais avaliar", indicou.

Novo tipo de pneumonia e transmissão pelo ar

A OMS indicou ainda nesta sexta-feira que está acompanhando de perto as notícias sobre uma eventual nova pneumonia alertada pela China. Ela seria mais letal do que a gerada pelo novo coronavírus e teria sido detectada no Cazaquistão. O país vizinho, no entanto, negou essa informação e chamou o aviso de "fake news".

"Isso está em nosso radar", afirmou Ryan. A OMS já enviou equipes para o país para investigar o caso. Mas, segundo ele, há uma chance elevada de que os doentes estejam contaminados pela covid-19 e que foram diagnosticados de forma errada. "Mantemos nossas mentes abertas. Mas parece ser casos não confirmados de covid-19", explicou.

Mas o que sim preocupa a OMS é a possibilidade de que o vírus também seja transmitido pelo ar. "Isso não pode ser descartado", disse Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS. "Isso preocupa desde o começo, principalmente em locais como hospitais", explicou a representante da entidade, que sugere proteção para profissionais de saúde.

"O que precisamos agora é mais investigação sobre os locais que podem ser afetados e queremos acelerar pesquisas", disse.

Depois de ser pressionada pelo cientistas, a OMS publicou nesta quinta-feira um documento em que admite que a transmissão da covid-19 pelo ar poderia ocorrer. Mas ainda insistiu que novos estudos são necessários para determinar com qual frequência isso de fato é registrado e se tais evidências de estudos conduzidos até agora seriam suficientes para estabelecer uma reviravolta científica na questão da transmissão.

De acordo com os documentos da entidade, o vírus poderia adotar tal caminho durante procedimentos médicos que geram aerossol. Mas alerta que está estudando com a comunidade científica a possibilidade de que isso também ocorra em outros locais sem ventilação adequada, como restaurantes, ensaios de coral e academias de ginástica, além de locais com aglomerações e espaços fechados com lotações importantes.

Se confirmada, a nova forma de transmissão significaria que todo o modelo de distanciamento social teria de ser repensado, assim como a abertura ou não de estabelecimentos comerciais e restaurantes. Hoje, a agência sugere um distanciamento mínimo de um metro entre pessoas, suficiente para se proteger de gotículas maiores que poderiam transmitir o vírus.


Missão para a China

Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda enviou uma missão avançada para a China para organizar uma investigação sobre as origens do novo coronavírus. Acredita-se que o vírus tenha surgido em um mercado de animais de Wuhan. Mas a questão é saber de que forma a doença saltou de animais para seres humanos.

De acordo com a agência, dois especialistas de Genebra irão fechar um roteiro com cientistas chineses para investigação.

"Uma das grandes questões que todos estão interessados, e é claro que é por isso que estamos enviando um especialista em saúde animal, é verificar se ele saltou ou não das espécies para um humano e de que espécies saltou", disse Margaret Harris, porta-voz da OMS.

"Sabemos que é muito, muito semelhante ao vírus no morcego, mas será que ele passou por uma espécie intermediária? Esta é uma pergunta que todos nós precisamos responder", disse.

Nos últimos meses, o presidente americano Donald Trump tem dito que o vírus pode ter tido origem em um laboratório em Wuhan. Mas jamais deu provas disso. A China nega e as próprias agências de inteligência dos Estados Unidos disseram que ele surgiu na natureza.

Fumantes são vulneráveis

Numa outra iniciativa, a OMS ainda lançou um programa para ajudar fumantes a ter acesso a recursos para deixar tabaco. De acordo com a entidade, o cigarro mata já oito milhões de pessoas por ano. Mas os estudos também revelam que fumantes estão entre as pessoas que desenvolvem a covid-19 de forma mais grave.

"A pandemia é bom incentivo para deixar de fumar. Fumantes estão mais vulneráveis para desenvolver casos mais severos", alertou Tedros.

O projeto incluiu a criação do que a OMS chama da "primeira profissional de saúde" elaborada a partir de inteligência artificial. Apelidada de Florence, a profissional de saúde digital ajudará fumantes a ter acesso a informação e esclarecer dúvidas em qualquer hora do dia.

A iniciativa é uma reação a uma campanha obscura que alegava que fumantes, misteriosamente, eram poupados da covid-19. Na OMS, a suspeita é de que informação disseminada foi plantada pela indústria do cigarro. A agência garante que os estudos mostram exatamente o contrário.

Jamil Chade