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Trump pressionou brasileiro, revela livro; Azevedo nega

                                 Ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o brasileiro Roberto Azevêdo                              -                                 Fabrice COFFRINI / AFP
Ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o brasileiro Roberto Azevêdo Imagem: Fabrice COFFRINI / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

15/09/2020 15h21

Resumo da notícia

  • Relato faz parte de livro de Bob Woodward, Rage, sobre os bastidores do governo de Donald Trump
  • Azevedo, em entrevista à jornalista Míriam Leitão, negou que a conversa teria ocorrido

O livro de Bob Woodward, Rage (Simon & Schuster), lançado nesta terça-feira sobre os bastidores do governo de Donald Trump revela que o chefe da Casa Branca pressionou o brasileiro Roberto Azevedo, que ocupava o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio. E ainda ameaçou o diplomata se suas ordens não fossem atendidas, indicando que sairia da OMC.

Em entrevista exclusiva à jornalista Miriam Leitão, o brasileiro desmentiu a versão de Trump e disse que a conversa não ocorreu.

Em maio, o brasileiro surpreendeu a comunidade internacional ao anunciar, em plena crise global, que deixaria a entidade um ano antes do fim de seu mandato. Oficialmente, o diplomata brasileiro justificou a saída como um gesto para ajudar a OMC a fazer uma transição para o próximo diretor. Ainda assim, sua iniciativa foi recebida com alta dose de desconfiança.

Na semana passada, um dos nomes mais conhecidos da diplomacia brasileira se mudou para os EUA para assumir a vice-presidência da PepsiCo.

De acordo com o livro de Woodward, porém, ele estava recebendo pressões da Casa Branca. O livro conta como Trump ameaçou sair da OMC em uma conversa com Azevedo, por telefone.

Na ligação, o presidente americano sinalizou que os EUA deveriam ser tratados como um "país em desenvolvimento". O status que detém a China, Índia, Argentina e dezenas de outros países permite que esses governos mantenham tarifas mais elevadas que os países ricos, que reduzam seus subsídios de forma mais lenta e que tenham mais espaço para a intervenção do estado na economia.

A diferenciação foi uma forma encontrada para permitir o desenvolvimento desses países que, em condições de igualdade, não teriam como competir com Alemanha, Japão ou EUA.

Para a Casa Branca, essa diferença entre países ricos e em desenvolvimento não faz mais sentido no século 21 e se justifica apenas para as economias mais frágeis do mundo. De fato, Trump conseguiu convencer o governo de Jair Bolsonaro a abandonar o direito que o Brasil tem de ser considerado como país em desenvolvimento para os futuros acordos comerciais.

O relato de Trump foi feito a Woodward no dia 22 de janeiro e aponta que o brasileiro indicou que tal proposta não seria possível. Segundo o jornalista, Trump disse: "Roberto, vocês nos tratam de forma muito negativa". "Os EUA são considerados como um lugar muito rico e a China como uma nação em desenvolvimento e a Índia é uma nação em desenvolvimento", disse. "Se você é um país em desenvolvimento, você consegue coisas que ninguém mais consegue", afirmou. "Nós vamos ser um país em desenvolvimento", disse.

Ao ouvir uma objeção do brasileiro, o americano então respondeu: "Então isso é o que eu vou fazer: estou saindo na OMC".

Na entidade com sede em Genebra, embaixadores evitaram comentar a ligação e não existem detalhes de quando isso teria ocorrido, ainda que o livro diga que havia sido pouco antes de 22 de janeiros. A coluna não conseguiu contato com Azevedo, que já assumiu seu cargo na multinacional.

Antes mesmo de assumir o governo americano, o magnata sugeriu que se a OMC não mudasse, os EUA deixariam a entidade e que o acordo que a criou era "o pior tratado comercial jamais fechado".

Azevedo assumiu o cargo com o sinal verde da Casa Branca e evitou, por meses, criticar publicamente o governo Trump por seus ataques ao multilateralismo e mesmo por abrir uma guerra comercial inédita com a China.

Nos bastidores, o brasileiro acreditava que se entrassem em choque com os americanos, ele e a OMC seriam os derrotados. Sua meta era a de manter Washington dentro da organização, considerada por Trump com um trampolim para o avanço chinês.

Mas sua estratégia não deu resultados. Ao longo dos anos Trump, o governo americano conseguiu paralisar a OMC, desmontando seu tribunal e impedindo o avanço de negociações. Com a entidade no limbo, Washington então apresentou há poucas semanas e já com Azevedo deixando Genebra sua proposta de ampla reforma do sistema comercial internacional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL