PUBLICIDADE
Topo

França aponta impacto ambiental alto, o que pode ruir acordo Mercosul-UE

Os presidentes Emmanuel Macron (França)  e Jair Bolsonaro (Brasil) - Jacques Witt - 28.jun.2019/AFP
Os presidentes Emmanuel Macron (França) e Jair Bolsonaro (Brasil) Imagem: Jacques Witt - 28.jun.2019/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/09/2020 12h15

Resumo da notícia

  • Comissão criada por Emmanuel Macron conclui que acordo comercial teria custo ambiental maior que benefícios
  • França havia prometido que apenas ratificaria acordo depois de avaliar impacto ao meio ambiente
  • Área dedicada à produção, principalmente de gado, teria de ser aumentada, gerando emissões de CO2

O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul representa uma ameaça ambiental. Essa é a conclusão de um estudo encomendado pelo governo francês e que, na prática, pode enterrar o projeto que levou 20 anos para ser negociado.

O resultado dos estudos será divulgado nesta sexta-feira, em Paris. O jornal Le Monde revela que as conclusões são "severas" e que o tratado é uma "oportunidade perdida" em matéria ambiental e de saúde.

A coluna confirmou com diplomatas franceses que, de fato, a constatação do estudo não é positiva e pode colocar em risco o processo de ratificação.

Emmanuel Macron, presidente francês, havia prometido que, antes de ratificar o acordo fechado com o Mercosul em meados de 2019, ele solicitaria uma avaliação de impacto ambiental, o que levou mais de seis meses para ser realizado.

De acordo com o estudo, o cenário mais provável é que o desmatamento ocorrerá a uma taxa anual de 5% durante os seis anos seguintes à implementação do acordo. Na prática, isso custaria 700.000 hectares.

Os prejuízos ambientais, portanto, seriam maiores que os benefícios econômicos. Já o custo climático representaria uma maior emissão de CO2.

A lógica do grupo de especialistas é de que, com maior exportação de carne do Mercosul para a Europa, novas áreas de pastagem teriam de ser criadas para aumentar a produção na região do Cone Sul.

Ratificação distante

O documento agora servirá de base para que o governo abra um debate sobre o acordo, inclusive com o Poder Legislativo.

Macron, pressionado por grupos ambientais e também pelo lobby protecionista, já tinha acenado para o fato de que não ratificaria o tratado diante da atual situação ambiental no Brasil. Na Alemanha, o governo de Angela Merkel também acenou na mesma direção.

Mas ambos os países também sofrem a pressão de sua indústria, inclusive do setor automotivo, que quer maior acesso ao mercado do Cone Sul e temem perder espaço para China e EUA.

Pelas regras do acordo, o tratado apenas entraria em vigor se todos os 27 países da UE ratifiquem o entendimento. Em parlamentos como o da Holanda e Áustria, resoluções já foram aprovadas para impedir o tratado, ainda que não tenham poder vinculante.

Dentro do Itamaraty, a pressão ambiental é interpretada como parte de um lobby protecionista do setor agrícola europeu que sofreria com a concorrência dos produtos do Mercosul.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL