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1 milhão de motivos para se indignar

                          -                                 CRISTINA VEGA RHOR / AFP
Imagem: CRISTINA VEGA RHOR / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/09/2020 16h10

Eles são maridos e esposas, irmãos, primas, amigos, companheiras de trabalho e tantos avós e avôs que representavam a sabedoria de comunidades inteiras.

Para muitos deles, não houve forma de dizer "adeus". Milhares de famílias foram impedidas de dar um último beijo. Pessoas amadas se foram sem um abraço de despedida, sem ouvir uma declaração de amor sussurrada no ouvido.

A covid-19 transformou o mundo, revelou o melhor e o pior da humanidade. Mas, acima de tudo, nos deixou claro que chegamos a um limite. Um limite do populismo, um limite da desigualdade, um limite da soberania, um limite do descartável, inclusive de seres humanos.

O luto mudou. A celebração da vida mudou. O modelo fracassou. Em que mundo podemos aceitar que os ricos podem levar as mãos e os pobres não? Em que mundo podemos aceitar que uma parcela da sociedade pode ficar em casa para se salvar, enquanto para bilhões de outros ficar em casa é conviver com a morte?

O vírus escancarou desigualdades que já existiam e que uma parcela da população se recusava a ver. "Descobrimos" que bairros mais ricos têm mais áreas verdes, que 16 milhões de crianças não têm água e sabão nas escolas brasileiras. "Descobrimos" que a covid-19 matou de forma desproporcional as comunidades afro-americanas, as periferias brasileiras e as minorias no Reino Unido.

Nada que a periferia do mundo já não soubesse. Afinal, doenças ligadas à diarreia continuam matando mais de 1,2 milhão de pessoas a cada ano. 95% das mortes de tuberculose ocorrem em países pobres.

Mas essas vítimas são invisíveis para quem não as quer ver.

Entre os países mais ricos e mais pobres, existe ainda uma diferença de expectativa de vida de 34 anos, o que abre perguntas legítimas: estamos todos no mesmo século?

Também "descobrimos" que quase metade da população do planeta continua sem acesso à Internet - 3,6 bilhões de pessoas. No continente africano, apenas um a cada quatro indivíduos está online. Nos EUA, 15% da população afro-americana tampouco tem acesso às redes. A escola virtual, portanto, é uma fantasia.

Apesar de paralisar a economia mundial, jogar milhões para baixo da linha da pobreza e destruir o futuro de famílias, o vírus foi incapaz de unir a humanidade contra um inimigo comum. Charlatães continuaram a usar vidas - e mortes - como instrumento de poder.

Hoje, repito o que já escrevi em outras ocasiões: o luto pelos mortos da covid-19 precisa ser um ato de resistência. Um grito de mobilização. Essa, sim, uma homenagem real àqueles que morreram e uma chama de esperança para que os permaneceram.

Se não agora, quando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL