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Jamil Chade

Bolsonaro usa ONU para rebater Biden e só amplia o receio internacional

Estátuas de gelo representando Donald Trump e Jair Bolsonaro são colocadas em frente à ONU, em Nova York, durante cúpula sobre o meio ambiente - REUTERS/Carlo Allegri
Estátuas de gelo representando Donald Trump e Jair Bolsonaro são colocadas em frente à ONU, em Nova York, durante cúpula sobre o meio ambiente Imagem: REUTERS/Carlo Allegri
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

30/09/2020 17h28

O presidente Jair Bolsonaro adotou um tom de confrontação na cúpula da ONU de biodiversidade nesta quarta-feira, rompeu com o tom do encontro de cooperação internacional, não assumiu metas para a próxima década em termos de proteção ambiental e voltou a contorcer e mentir sobre dados sobre a situação do desmatamento no Brasil.

O presidente decidiu participar de última hora do encontro. Mas uma semana depois de seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, ele uma vez mais deixou os organizadores do encontro irritados.

Na agenda original do evento, Bolsonaro não fazia parte dos líderes que iriam discursar. O representante do Brasil seria o chanceler Ernesto Araújo. Um dia depois de Joe Biden ameaçar o Brasil diante do desmatamento, o presidente decidiu de última hora que participaria da cúpula, pegando muitos diplomatas brasileiros de surpresa.

Como não havia mais lugar no período regular da reunião, Bolsonaro foi deixado para uma sessão que ocorreu durante o almoço em Nova York, em grande parte ao lado de nanicos da diplomacia internacional como Comoros, Bolívia, Ilhas Marshall, Tonga, Sierra Leoa, Seychelles e Butão.

A sessão na qual Bolsonaro falou, ainda assim, contou com o discurso dos primeiros-ministros da Itália, Holanda e Reino Unido. No protocolo da diplomacia, presidentes têm prioridade sobre chefes de governo, que apenas podem discursar depois de todos os chefes de Estado.

O presidente da Assembleia Geral da ONU, Volkan Bozk?r, que comandava o encontro, não estava presente e deixou seus subalternos para conduzir o encontro durante o almoço.

Discurso brasileiro destoa de objetivo de unificação da cúpula

Foi o tom adotado pelo presidente brasileiro que, uma vez mais, surpreendeu e foi recebido com "mal-estar" por sua atitude "desafiadora".

A lógica da cúpula, segundo seus organizadores, era o de buscar caminhos comuns para lidar com a crise e criar uma conscientização de que o tema do meio ambiente é urgente. A esperança da ONU era de que governos assumissem metas e compromissos. Ou que pelo menos indicassem que reconheciam a gravidade da crise e que o momento era o de agir de forma coordenada.

Em seu lugar, porém, o brasileiro voltou a abusar da palavra "soberania". O termo "união" no discurso de Bolsonaro só aparece quando ele cita a biopirataria, a sabotagem ambiental e o bioterrorismo, uma forma interpretada como uma maneira de apontar o dedo aos estrangeiros.

Também foi considerado como um "abuso" a insistência no uso de informações questionáveis, como sua indicação de que aumentou a vigilância na Amazônia e que o governo está atuando para reverter a alta do desmatamento que teria ocorrido, segundo o presidente, em anos anteriores. Pelos dados internacionais, são os anos da administração de Bolsonaro que viram um aumento do desmatamento.

Conhecido por divulgar desinformação, Bolsonaro foi alvo de ironias uma vez mais ao acusar estrangeiros de promover "informações falsas".

Novos ataques a ONGs, sem provas

As acusações feitas pelo presidente brasileiro soaram especialmente "fora de lugar", apurou a coluna. Bolsonaro voltou a criticar as ONGs e acusá-las de fazer parte de crimes ambientais, sem qualquer prova.

"Na Amazônia, lançamos a 'Operação Verde Brasil 2', que logrou reverter, até agora, a tendência de aumento da área desmatada observada nos anos anteriores. Vamos dar continuidade a essa operação para intensificar ainda mais o combate a esses problemas que favorecem as organizações que, associadas a algumas ONGs, comandam os crimes ambientais no Brasil e no exterior", declarou.

Para uma delegação europeia, a acusação gerou "indignação".

Também surpreendeu o que diplomatas estrangeiros chamaram de "conspirações". "Rechaço, de forma veemente, a cobiça internacional sobre a nossa Amazônia", disse Bolsonaro. "E vamos defendê-la de ações e narrativas que agridam a interesses nacionais", afirmou.

"Não podemos aceitar, portanto, que informações falsas e irresponsáveis sirvam de pretexto para a imposição de regras internacionais injustas, que desconsiderem as importantes conquistas ambientais que alcançamos em benefício do Brasil e do mundo", disse.

Coalização internacional é liderada por França e Costa Rica

O discurso ainda se contrastou com as promessas de ambição por parte de dezenas de outros governos, além do compromisso ao multilateralismo, um termo vetado no Itamaraty.

Durante o evento, uma coalizão de governo foi reforçada para garantir que, até o ano de 2030, 30% do território global seja protegido e que a perda de biodiversidade seja interrompida. O processo é liderado por Costa Rica e França, pais que aproveitou o evento para criticar especificamente o desmatamento da Amazônia.

Um dos membros da aliança é o presidente da Colômbia, Ivan Duque. Em seu discurso, ele evitou um tom negacionista e disse que "a perda de biodiversidade avança num ritmo sem precedentes".

Já o presidente do Peru, Martin Vizcarra, pediu "um multilateralismo reforçado" e anunciou a adesão à coalizão para proteger novas áreas em todo o mundo. Lima assumiu para si a "liderança regional" na questão do meio ambiente.

Até mesmo aliados de Bolsonaro adotaram um tom ambientalista. O representante da Hungria defendeu que nenhum país se considere como uma ilha, enquanto o presidente de Israel, Reuven Rivlin, falou em "momento crítico" e pediu "ação urgente". "Temos a oportunidade de mudar a rota", defendeu. Quênia, Áustria, Eslovênia e dezenas de outros países pediram um "futuro verde".

Do lado de fora do prédio da ONU, Bolsonaro ainda foi alvo de um protesto organizado pela entidade Greenpeace.

Esculturas de gelo dos presidentes dos Estados Unidos e do Brasil foram expostas e rapidamente derreteram. O protesto servia para denunciar as políticas ambientais dos dois países. Para a ONG, Bolsonaro Trump, têm "planos deliberados para destruir ativamente a natureza". "Líderes da extinção: destruindo um planeta em crise", dizia uma faixa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL