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Jamil Chade

Estudo: Brasil vive maior retrocesso em liberdade de expressão do mundo

aís despenca mais de 40 posições em ranking mundial e métodos do governo para lidar com informações e opositores é discutido - Foto: Marcelo Casalo Jr./Agência Brasil
aís despenca mais de 40 posições em ranking mundial e métodos do governo para lidar com informações e opositores é discutido Imagem: Foto: Marcelo Casalo Jr./Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/10/2020 09h00Atualizada em 19/10/2020 17h44

Resumo da notícia

  • Informe da ONG Artigo 19 passa a classificar Brasil no grupo de países onde há "restrição" à liberdade de expressão
  • País foi o que teve maior deterioração em relação ao acesso à informação, transparência e repressão em 10 anos
  • Na América do Sul, apenas a Venezuela vive uma situação pior em termos desses direitos, segundo ranking
  • No mundo, 3,9 bilhões de pessoas vivem hoje em países onde a liberdade de expressão passa por crise

O Brasil sofre a maior queda no mundo na avaliação da liberdade de expressão e passa a ser qualificado dentro do grupo de países onde existe "restrição" para esse direito. A constatação é da entidade internacional Artigo 19 que, nesta segunda-feira, apresenta seu informe global.

O levantamento revela que, hoje, 3,9 bilhões de pessoas no mundo vivem sob crise de liberdade de expressão. Na prática, mais da metade da população mundial vive em um país onde a condição de ser livre para se expressar passa por um estado de crise. Trata-se do pior resultado em 20 anos.

A queda foi puxada por restrições crescentes em países com grandes populações, como a China, Índia, Turquia, Rússia, Bangladesh e Irã, e por retrocessos e quedas alarmantes em países como o Brasil, Estados Unidos, Hungria e Tanzânia.

Se no ranking de 2009 o Brasil somava 89 pontos em uma escala de zero a 100 no que se refere aos critérios de liberdade de expressão, em 2020 o país obteve apenas 46 pontos e despencou. Hoje, ocupa a modesta 94ª posição, entre 161 países avaliados.

Com isso, o Brasil deixa de fazer parte da lista de países classificados como "abertos" em termos de liberdade de expressão.

O ranking é dividido em cinco categorias para pedir a garantia da liberdade de expressão em cinco categorias. Países que pontuam entre 0 e 19 são classificados como "em crise". Aqueles com uma taxa entre 20 e 39 pontos são definidos como países com "com alta restrição". O segmento seguinte é onde o Brasil se encontra: países com restrição nas garantias desse direito, com uma pontuação de 40 a 59.

Brasil se aproxima da Venezuela em restrições à liberdade

O ranking ainda prevê uma categoria de países "em restrição parcial (entre 60 e 79 pontos)". Já no grupo de elite estão países como Dinamarca, Suíça, Noruega e Canadá, considerados como "abertos". Nesse grupo ainda estão países sul-americanos como o Uruguai, Chile e Argentina, além dos EUA.

A queda de 43 pontos do Brasil foi a mais significativa do mundo, seguido pela Índia, Nicarágua e Ucrânia. De acordo com o informe, a deterioração já começou a ocorreu ao longo da década, mas foi "acelerada com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder no início de 2019".

De acordo com o levantamento, o país perdeu 18 pontos em apenas um ano e hoje está praticamente empatado com as Filipinas, abaixo da Hungria ou Haiti.

De acordo com o estudo, o Brasil está atrás de todos os países da América do Sul, com exceção apenas da Venezuela.

"A pandemia de 2020 fez do Brasil um exemplo extremo de como líderes autoritários e restrições à liberdade de expressão, combinados com desinformação, representam um alto risco para a saúde pública", destaca a análise.

Ataques contra a imprensa degeneram o acesso à informação

Na avaliação da entidade, países com grandes populações e outros com grande influência — China, Índia, Rússia, Turquia, Irã e Bangladesh — estão vivendo em uma "crise de expressão". O Brasil ainda não entrou na categoria de crise, mas tem visto um declínio acentuado e acelerado, enquanto países como os Estados Unidos estão vacilando e criando ambientes cada vez mais hostis para comunicadores e ativistas.

Além do indicador e do alerta, a publicação traz recomendações para reverter essa tendência. "No Brasil e no mundo, é preciso garantir um ambiente de trabalho seguro para jornalistas, livre de ataques a organizações da sociedade civil e em que a população não encontre barreiras de acesso à informação pública e a uma internet livre de violações de direitos humanos", afirma Denise Dourado Dora, diretora executiva da organização não governamental Artigo 19.

Os ataques contra a liberdade de expressão no Brasil acontecem dentro de um contexto maior e que tem atingindo outros países pelo mundo. Segundo a entidade, o abuso de poder excessivo e o deslize em direção à autocracia começam ganhando o controle sobre a sociedade civil e a mídia.

Esses governos, num primeiro momento amordaçam as entidades de controle, se desfazem em instituições democráticas e, por fim, destroem a independência das eleições. "Os dados em países como Hungria, Turquia, Polônia, Sérvia, Brasil e Índia nos mostram este padrão de forma consistente", alerta.

Governo do Brasil atua sobre restrição de informações e ataca jornalistas e ativistas

De acordo com o levantamento, o governo Bolsonaro passou a adotar duas estratégias. Uma delas é a desinformação, suprimindo dados precisos e reduzindo o acesso a fontes de informações oficiais.

A segunda são ataques contra vozes independentes, desde jornalistas e blogueiros até ativistas de direitos humanos e ONGs.

A mesma estratégia contém objetivos claros de criminalizar movimentos sociais. "Em 2016, foi aprovada uma lei antiterrorismo, consistentemente aplicada para criminalizar os movimentos sociais e os protestos. Em 2019, 21 novos projetos legais foram propostos, com o objetivo de aumentar as penas e restringir ainda mais as atividades", indicou o relatório.

A criminalização de ONGs e defensores é particularmente séria na área dos direitos ambientais, como foi demonstrado durante os incêndios na Amazônia em 2019. Grupos de ambientalistas e membros dos Bombeiros de Alter do Chão (PA) chegaram ser presos ou indiciados.

No ano passado, 24 defensores de direitos humanos foram assassinados no Brasil, contra 18 no México e 14 em Honduras. Hoje, a região é a que mais mata ambientalistas.

Em 2019, 33 assassinatos ocorreram na região Amazônica e quase 90% dos assassinatos de ativistas e indígenas no Brasil aconteceram nesse setor do país. Um deles foi Paulo Paulino Guajajara, de 26 anos.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no quinto parágrafo, o Brasil obteve 46 pontos e despencou no ranking em 2020, e não em 2000. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL