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Jamil Chade

Acusada de abandonar ciência, Europa sucumbe ao 2o confinamento

29.out.2020 - O primeiro-ministro francês Jean Castex deixa coletiva de imprensa sobre novo lockdown por causa da covid-19  - Pool/AFP
29.out.2020 - O primeiro-ministro francês Jean Castex deixa coletiva de imprensa sobre novo lockdown por causa da covid-19 Imagem: Pool/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

02/11/2020 04h00

Entra em vigor a partir de hoje um novo confinamento na Alemanha, depois que França, Reino Unido, Espanha, Grécia, Portugal, Áustria e tantos outros seguiram o mesmo caminho. Nove meses depois da eclosão da pandemia da covid-19 e após uma sensação de vitória, a Europa sucumbe a uma nova fase de restrições e confinamentos. Desta vez, cientistas alertam: foram ignorados quando avisaram que a reabertura estava ocorrendo de forma rápida demais e que governos não tinham criado estratégias de longo prazo.

Os números não deixam dúvidas de que a segunda onda é real e mortal. Na semana passada, o continente europeu registrou 1,7 milhão de novos casos de pessoas infectadas, contra 950 mil nas Américas. A taxa é dez vezes maior que os números da última semana de julho.

No continente europeu, foram 17 mil mortes nos últimos sete dias, mais de cinco vezes o número registrado em meados do ano. Apenas quatro semanas entre abril e março tiveram mais casos de morte que a última semana. Naquele momento, os óbitos variaram entre 20 mil e 28 mil por semana.

Nos dez meses de pandemia, já são 285 mil mortos na Europa e mais de 11 milhões de infectados.

Na OMS e entre governos, existem várias teses sendo avaliadas sobre o motivo pelo qual o número de casos explodiu. O vírus poderia ter sofrido uma mutação, o relaxamento permitiu uma maior contaminação entre jovens e um maior número de testes poderia distorcer a comparação entre o número de casos na primeira onda - entre março e abril - e a atual crise.

Mas os discursos iniciais de que as mortes não seriam um problema nessa segunda fase foram abandonadas e, pelo caminho, ficaram as análises consideradas como precipitadas de parte da sociedade de defendia que bastaria aprender a "conviver com o vírus". Na sexta-feira, por exemplo, a França registrou maior número de mortes desde o dia 20 de abril. No Reino Unido, a taxa de mortes dobra a cada semana.

Hospitais lotados e temor de nova onda de mortes obrigaram governos a voltar ao confinamento, o que era considerado dentro do planejamento como "medida de última instância". Mas a incapacidade de líderes em lidar com os primeiros sinais de que a nova onda voltaria com força passou a ser alvo de duras críticas.

De uma forma geral, a constatação é de que governos fracassaram no sistema de testes e isolamento, não incrementaram leitos em hospitais como havia sido prometido e não resistiram às pressões econômicas por manter a sociedade aberta.

Para OMS, a vitória declarada ao longo dos últimos meses foi um erro e poucos foram os governos que aproveitaram os meses de relativa calmaria para incrementar sua preparação. "Ninguém deseja a volta dos confinamentos. Mas precisamos agir", alertou Mike Ryan, diretor de operações da agência, assim que os primeiros sinais de que a curva começava a ganhar força surgiram, em setembro.

Cientistas ignorados

Entre os cientistas, a acusação é de que governos os deixaram de lado na formulação de estratégias e adiaram ao máximo qualquer decisão de recolocar restrições. Por semanas, líderes optaram por negar a possibilidade de que a segunda onda poderia ser tão forte ou até pior que a primeira.

Temendo um profundo impacto econômico e alertados pela reação de uma população cansada, governos europeus escolheram reabrir suas sociedades e, em setembro, as medidas basicamente já não existiam, salvo o uso de máscara e um apelo pelo distanciamento.

Fontes no governo espanhol admitem que dois fatores pesaram. De um lado, o temor de protestos de cidadãos, como começam a ser vistos. De outro, o enfraquecimento da unidade política que se obteve em vários dos países na primeira onda da pandemia.

Em Paris, a disparidade sobre como a crise foi tratada nos dois momentos é evidente. Com mil casos por dia, a França ordenou um confinamento geral em março. Desta vez, Paris esperou uma semana inteira depois de os casos superarem a marca de 20 mil por dia para adotar os primeiros toques de recolher. Dias depois, quando os níveis de contaminação superavam 30 mil casos por dia, o confinamento finalmente foi adotado.

Os franceses não foram os únicos. Por mais de um mês, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, ignorou os pedidos de seus próprios cientistas para que considerasse medidas de restrição. Ele chegou a prometer que um novo confinamento não ocorreria. Mas, no último sábado, foi obrigado a ceder.

Na Holanda, os especialistas convocados pelo governo para o aconselhar emitiram uma crítica no final de setembro. Segundo eles, as autoridades tinham optado por os ignorar.

Algo similar ocorreu na Irlanda. Depois de semanas sendo deixados de lado, o time de cientistas do governo decidiu que não mais enviaria suas recomendações às autoridades. Mas à imprensa e ao público. No alerta, o grupo apontava que havia feito um pedido por medidas há quatro semanas, e foram ignorados.

O motivo: um novo confinamento poderia afetar a nota de risco o país e o déficit que já se acumulava seria ainda mais difícil de ser financiado. A conta estava sendo feita na ponta do lápis. Um confinamento representaria 400 mil irlandeses sendo mantidos por programas sociais, o que deixaria o estado sem oxigênio.

Um longo e duro inverno

Mas a realidade sanitária se impôs, obrigando governos a levantar barreiras com o objetivo de ganhar tempo e, de certa forma, num reconhecimento do fracasso de suas respostas.

Na França, Emmanuel Macron admitiu em rede nacional que, apesar de suas medidas, o vírus continuava mais forte e que "nem o cenário mais pessimista" poderia prever tal situação. Segundo ele, a segunda onda poderia ser mais letal que a primeira.

A meta, porém, é de que a contração da economia seja de apenas 15%, contra 30% entre março e abril. Para isso, as obras vão continuar e certas fábricas continuarão a trabalhar.

No Reino Unido, o lockdown também será válido por um mês, com a autorização para que escolas e comércio essencial sejam mantidos abertos. Hoje, já são 46 mil mortes. Na Espanha, a maioria das fronteiras domésticas está fechada.

Alemanha, a partir desta segunda-feira, restaurantes, bares e locais de cultura estarão fechados. "Será um longo e duro inverno", constatou a chanceler Angela Merkel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL