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Jamil Chade

Itamaraty irá manter lealdade a Trump até o final do processo

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

05/11/2020 05h35

Resumo da notícia

  • Se Trump acionar Justiça, governo brasileiro não reconhecerá imediatamente eventual vitória de Biden e irá aguardar tribunais
  • Diplomacia recomenda não-ingerência em processos políticos estrangeiros. Mas Itamaraty violou tal princípio na Argentina, Venezuela, Chile e Bolívia

O governo brasileiro vai se mostrar leal ao presidente Donald Trump até o final do processo, inclusive se a definição do resultado eleitoral se arrastar nos tribunais dos EUA. No Itamaraty, a orientação é de que não haverá qualquer manifestação caso Joe Biden atinja os 270 votos do colégio eleitoral, número "mágico" que lhe garantiria a vitória. Salvo se o próprio presidente americano reconhecer sua derrota.

No governo brasileiro, uma desculpa legalista vai ser usada para não mostrar qualquer sinal de aceitação imediato dos resultados das urnas. Se Trump de fato abrir uma guerra jurídica para se manter no poder, o Itamaraty irá justificar que o processo não foi concluído e que, portanto, não poderia se antecipar a uma decisão doméstica de um outro país.

A diplomacia, de fato, recomenda tal postura de não-ingerência. Mas, nos últimos meses, o governo brasileiro optou por se meter em eleições na Argentina, criticar manifestantes no Chile e se envolver diretamente no caos constitucional na Bolívia. Isso, claro, sem contar a decisão do governo brasileiro de reconhecer Juan Guaidó como o auto-proclamado presidente da Venezuela.

No caso dos EUA, a orientação de não-ingerência cai como uma luva para um governo brasileiro que inaugurou uma situação inédita de submissão ao presidente americano.

Em Brasília, diplomatas admitem à coluna que existe um sentimento de que o Itamaraty e, de uma forma geral, o governo serão pressionados por Trump a manter a aliança, pelo menos até que o próprio presidente americano reconheça que foi derrotado. A situação levou o presidente Jair Bolsonaro a solicitar que o chanceler Ernesto Araújo permanecesse em Brasília.

Existem dois argumentos que circulam no governo. O primeiro deles é de que se Trump acabar vencendo nas urnas ou nos tribunais, a Casa Branca eventualmente reconhecerá quem esteve sempre ao seu lado, mesmo quando havia uma ameaça de que ele perderia.

Mas o outro argumento é o da sobrevivência. Uma eventual vitória de Biden mexeria com a posição do Brasil no mundo e não se exclui a possibilidade de que, no médio prazo, os principais artífices dessa aliança entre Trump e Bolsonaro tenham de buscar outros postos.

"Deus de Trump"

Um deles poderia ser o próprio chanceler, que antes mesmo de assumir o cargo escreveu um texto em que apostava em Trump como a pessoa que resgataria o Ocidente de uma crise de valores.

No texto, o diplomata concluía que "somente Trump pode ainda salvar o Ocidente". Segundo o chanceler, o americano propõe "uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais".

"A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história", resumiu.

Entre várias citações religiosas, referências históricas e uma enorme carga de nacionalismo, Araújo ainda fala no "Deus de Trump". "Não é o Deus?consciência cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo", explica.

Não por acaso, nos últimos dias, tanto Bolsonaro como seus filhos fizeram eco aos argumentos apresentados por Trump de que haveria uma "fraude" na eleição americana. Nem na Casa Branca e nem no Planalto qualquer indício, prova ou elemento que sustente a tese foram apresentados. Uma missão internacional de mais de cem observadores da OSCE indicaram que a acusação de fraude é "infundada".

A aliança entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca foi acionada em diversos momentos nos últimos meses para ajudar na reeleição de Trump. O Brasil, por exemplo, abriu mão da exportação de quase 300 mil toneladas de produtos siderúrgicos ao mercado americano desde outubro para que o campo republicano pudesse convencer os trabalhadores do setor do aço nos EUA a votar por Trump.

O Brasil também acolheu uma visita do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, à fronteira com a Venezuela. O ato fazia parte de uma tentativa da Casa Branca para convencer o voto latino na Flórida, entre outros fatores.

Para completar, o governo foi um dos principais apoiadores de uma iniciativa dos EUA de criar uma aliança global para a defesa da "família" e antiaborto, numa sinalização usada para fortalecer a base ultraconservadora.