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Jamil Chade

Casos de covid-19 atingem ONU e OMS, quartéis-generais contra a pandemia

OMS - Imagem: Askarim/Shutterstock
OMS Imagem: Imagem: Askarim/Shutterstock
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/11/2020 04h00

A frase "não está fácil para ninguém" não tem exatamente uma tradução ao diplomatês. Mas a realidade é que o centro da diplomacia mundial vive uma situação inesperada. Genebra (Suíça), capital do multilateralismo e da resposta à pandemia, se transformou nos últimos dias também no local de transmissão mais intensa da covid-19 na Europa, justamente onde a operação de resposta deveria ser organizada.

Pelos corredores da ONU (Organização das Nações Unidas), sobram apenas os ecos do que já foi um movimento intenso de negociadores e diplomatas. Pela OMS (Organização Mundial de Saúde), centro da resposta à pandemia, o esvaziamento do prédio apenas é interrompido por raros funcionários autorizados a entrar no edifício para liderar os trabalhos sobre a pandemia.

A agência de saúde soma, hoje, 65 pessoas contaminadas e investigações apuram se há uma transmissão interna no prédio que, antes da crise, via circular por seus corredores mais de 2,4 mil funcionários.

Mike Ryan, diretor de operações da OMS, também destaca a situação local como sendo "uma das transmissões mais intensas do mundo". Na semana passada, o diretor-geral da agência, Tedros Ghebreyesus, foi colocado em isolamento por ter tido contato com uma pessoa contaminada. Mas, apesar de passar meses pedindo "testes, testes e testes", o executivo não foi testado.

Adotando por meses uma atitude pouco rígida, a cidade de Genebra acabou pagando um preço elevado, numa ironia de sediar justamente as entidades que apresentam recomendações a todo o mundo.

Nos últimos sete dias, foram 892 casos para cada cem mil pessoas, a maior taxa de todas as regiões da Europa. No total, foram 4,4 mil novos casos numa cidade pequena e de intensa movimentação diplomática. Assim, portanto, os números colocaram Genebra como a região com a mais intensidade de transmissão.

Para especialistas, o rigor suíço sucumbiu a um período de verão em meados do ano sem controle, a ausência da máscara por meses, a falta de testes e um distância social inexistente.

Quando a cidade acordou, a transmissão já era de uma intensidade maior que na primeira onda da doença. O governo local foi obrigado a fechar restaurantes e lojas, além de prédios públicos e anular eventos. Reuniões entre familiares não podem contar com mais de cinco pessoas e a máscara finalmente se tornou um item indispensável.

No final de outubro, enquanto em Nova York 3% dos testes de covid-19 davam positivo, a taxa chegava a 28% em Genebra.

Paz interrompida

Mas as suspensões de trabalhos também significaram uma ameaça para negociações de paz sobre a crise na Afeganistão, planejadas para ocorrer ainda neste ano. Houve ainda um esforço para realizar um acordo de paz sobre a Líbia. Diplomatas passaram a trabalhar de casa, enquanto o contato entre embaixadores ficou limitado.

Num dos casos mais inesperados, a delegação síria que negociaria um acordo de paz, há poucos meses, acabou sendo colocada em quarentena ao desembarcar em Genebra. Quatro de seus negociadores estavam contaminados.

Na sede da ONU, são mais de 158 casos confirmados, dos quais 30 ocorreram apenas nos últimos sete dias. Já em Nova Iorque são mais 138 casos. No Alto Comissariado da ONU para Refugiados, a cúpula foi atingida. Filippo Grandi, o chefe da agência, foi contaminado, assim como a vice-diretora.

Ao marcar seus 75 anos de existência, a ONU foi obrigada a realizar as comemorações como a maioria das famílias: por Zoom. Mas a grande pergunta que se faz hoje nos corredores vazios é se o sistema multilateral ainda sobreviverá à disputa geopolítica que está sendo travada nos bastidores da diplomacia internacional pelo controle e influência no mundo pós-pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL