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Jamil Chade

Na ONU, Araújo omite China de acordo com Butantan e ataca multilateralismo

4.mai.2020 - O cancheler basileiro, Ernesto Araujo, e o presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino/Reuters
4.mai.2020 - O cancheler basileiro, Ernesto Araujo, e o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/12/2020 23h01

Resumo da notícia

  • Discurso do chanceler ainda destaca que o desemprego "está sob controle" no Brasil

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, usou um evento extraordinário da ONU (Organização das Nações Unidas) para tratar da crise da covid-19 para criticar a OMS (Organização Mundial da Saúde), questionar o multilateralismo e para defender alguns de seus mantras da diplomacia do atual governo, principalmente a soberania nacional. Mas ele ainda omitiu de seu discurso o parceiro com o qual o Instituto Butantan fechou um acordo para a produção de vacinas, citando apenas "laboratórios estrangeiros".

O evento virtual contou com mais de 90 presidentes e primeiros-ministros. A meta era a de garantir um compromisso amplo sobre como dar uma resposta global à crise. Mas o presidente Jair Bolsonaro optou por não participar. Araújo, pelo protocolo, ficou para o final da fila, sendo um dos últimos a discursar e quando já era o início da noite em Nova Iorque. Na agenda do ministro divulgada no site do Itamaraty, a participação tampouco era mencionada.

Em seu discurso, o chanceler fez questão de romper um tom de apoio ao multilateralismo adotado pelos demais governos e deixar claro que foram governos nacionais quem deram uma resposta à crise. Sua linha segue sua insistência da defesa da soberania nacional.

Falando no epicentro do multilateralismo, o chanceler fez questão de criticar o princípio que guia a ONU. Para ele, a crise deve ser enfrentada "por nações individuais, agindo de forma coordenada".

Segundo o ministro, a crise não pode ainda ser usada como "pretexto" para ampliar a agenda ou o mandato da ONU e, em sua visão, o organismo é apenas uma "plataforma para compartilhar experiências",

Sua defesa é de que a resposta contra a covid-19 é de responsabilidade de governos nacionais, e não de organismos estrangeiros. Para ele, não deve haver uma transferência de competências do nível nacional para o internacional e criticou "clichês bonitos como "o mundo precisa de mais multilateralismo" ou "problemas globais exigem respostas globais".

Chanceler critica falta de transparência da OMS

"Clichés não vão ajudar a solucionar a pandemia", insistiu. Para ele, apenas o "trabalho nacional" e a cooperação entre nações poderia dar uma resposta. Já o papel dos organismos seria apenas de servir como "local de coordenação".

Ainda que diga que reconhece o papel da OMS, Araújo criticou a agência e alertou que ela precisa ser mais transparente. Ele também admitiu que existe um papel a ser desempenhado pela coordenação internacional e indicou como o Brasil faz parte da Covax, a aliança por vacinas.

Uma vez mais, porém, ele insistiu que não foram os organismos internacionais quem saíram ao resgate dos trabalhadores e da economia nacional. "Isso recai sobre os contribuintes brasileiros. Não nos institutos internacionais", disse.

Araújo ainda destacou a suposta resiliência da economia brasileira e o fato de o desemprego estar supostamente "sob controle". Mas aproveitou para fazer mais um ataque aos organismos internacionais. "Isso não foi resultado das organizações", disse. "Isso não é para culpa-las. Mas são respostas nacionais que foram fundamentais", completou

Araújo omite China ao falar de acordos com Brasil

Ao discursar sobre o que o governo brasileiro tem feito, o chanceler fez referências ao contrato que o Brasil firmou com a AstraZeneca e Oxford. Mas apenas se referiu ao fato de que o Instituto Butantan conta com acordos com "laboratórios estrangeiros". O Itamaraty, assim, evitou falar abertamente da vacina com tecnologia chinesa.

Araújo ainda explicou que, juntos, Fiocruz e Butantan teriam a capacidade de produção de 600 milhões a 800 milhões de doses de vacinas.

Adotando uma estratégia que já vem repetindo em diversas reuniões, o chanceler usou termos como "liberdades fundamentais" para atacar de forma indireta a China.

"Quem não gosta da liberdade sempre tenta se beneficiar de uma crise para pregar limites para a liberdade", disse. "Controle social totalitário não é o remédio para nenhuma crise. Não vamos fazer a democracia e a liberdade mais uma vítima da covid-19", defendeu.

Nos últimos dias, Araújo tem travado uma troca de ofensas e críticas veladas contra a China nas redes sociais. Isso ocorreu depois que Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, atacou Pequim por conta da tecnologia 5G.

A resposta de Pequim alertou que o deputado estaria colocando em risco a relação entre os dois países. Araújo rapidamente saiu em defesa do filho de seu chefe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL