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Jamil Chade

Compra da vacina deve dividir mundo entre países vacinados e não-vacinados

Distribuição de comida durante a pandemia de covid-19 na África do Sul - LUCA SOLA / AFP
Distribuição de comida durante a pandemia de covid-19 na África do Sul Imagem: LUCA SOLA / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/12/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Países ricos já têm encomendas de vacinas em número superior às suas populações
  • Grupo de 90 nações não tem nenhum tipo de acordo para recebimento de vacinas
  • Consórcio Covax, organizado pela OMS, não recebeu verba necessária para assistir pobres
  • Divisão entre países "vacinados" e "não-vacinados" pode gerar muro invisível na imigração

À medida que a possibilidade de uma vacinação em massa contra a covid-19 se aproxima, governos como o do Reino Unido, Itália, Alemanha e outros começam a se preparar para o que deve ser a maior campanha de imunização da história. Mas dados recolhidos por centros de pesquisas, ONGs e especialistas confirmam que se esses locais já escolhem locais de entrega de vacinas e treinam seus enfermeiros, a realidade é que em dezenas de países mais pobres a vacina não passa ainda de um sonho distante.

De acordo com a Universidade Duke, dos Estados Unidos (EUA), 9,8 bilhões de doses de vacinas contra o coronavírus já tinham sido negociadas ou reservadas por governos até o dia 30 de novembro. Desse total, 7 bilhões já estavam asseguradas por contratos definitivos.

Nestas negociações, 3,8 bilhões de doses já estão nas mãos de um pequeno grupo de países ricos, entre eles EUA, Canadá e Reino Unido. Se essas populações representam menos de 13% do planeta, elas têm garantido mais de 50% de toda a capacidade produtiva de vacinas.

De acordo com o levantamento, vários são os casos de governos que já compraram vacinas em uma quantidade suficiente para imunizar várias vezes a totalidade de suas sociedades.

O Canadá, por exemplo, já comprou ou negocia um volume 600% acima do total de sua população. No Reino Unido, a taxa é de 418%, contra 450% nos EUA e 244% na UE (União Europeia). A Austrália também chega perto de 270% de cobertura, contra cerca de 120% para Israel. A Nova Zelândia é outro que já tem contratos que superam a totalidade de sua população,

Em números absolutos, o maior comprador é o governo americano, com 1 bilhão de doses já asseguradas e outras 1,6 bilhão em negociação. Na UE, os contratos já acertam a entrega de 1,5 bilhão de doses, além de negociações sobre outras 380 milhões.

Grupo de 90 países não tem acordo com farmacêuticas

Enquanto isso, os países de renda média somam acordos com um total de 829 milhões de doses, entre eles o Brasil. Já os países de renda mais baixa fecharam contratos para ter acesso a 1,7 bilhão de doses.

Mas, entre mais de 90 países mais pobres do mundo, os pesquisadores da Universidade Duke indicaram que não existem acordos com empresas farmacêuticas. Na prática, isso significa que eles estão dependentes hoje da aliança mundial de vacinas, a Covax.

O problema, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), é que não existem sinais claros de que o consórcio que promete fazer a vacina chegar a todos terá recursos suficientes para implementar seus planos. A agência estima que precisa de US$ 38 bilhões para atingir esse objetivo até o final de 2021, com um total de 2 bilhões de doses. Até hoje, porém, a entidade recebeu apenas US$ 5 bilhões.

O Banco Mundial já indicou que dará uma linha de crédito de US$ 12 bilhões. Mas, para muitos governos, não há mais como solicitar um novo empréstimo.

Líderes do mundo desenvolvido ainda não puseram discurso em prática

Nos bastidores, a direção da OMS e outros atores sociais percorrem os maiores doadores do mundo e governos de países ricos para insistir que apenas uma vacinação global contra a covid-19 vai permitir que a economia mundial volte a funcionar de uma maneira plena, recuperando-se mais rapidamente.

O dinheiro investido para vacinar os mais pobres, portanto, é apresentado como um investimento. Mas nem isso tem surtido um efeito imediato. Na última cúpula do G-20, governos anunciaram que "não mediriam esforços" para garantir que a vacina chegue a todos os cantos do planeta. Os líderes, porém, não chegaram a um acordo para se comprometer a ampliar os recursos.

De acordo com estudo da consultoria Eurasia Group, os países ricos seriam amplamente beneficiados se ajudassem de forma decisiva a vacinar os mais pobres. Apenas no primeiro ano, o impacto econômico para os dez maiores doadores seria de US$ 153 bilhões. Em cinco anos, o valor chegaria a US$ 466 bilhões, doze vezes o que seria destinado para a aliança de vacinas.

Exigência de vacina pode ser "novo muro" separando nações

O temor é de que a diferença de acesso aprofunde uma realidade da existência de um planeta que gira em duas velocidades diferentes.

Para representantes africanos, o temor é de que países ricos comecem a solicitar certificados de vacina para permitir que alguém embarque num avião em direção a cidades como Londres, Nova York ou Tóquio.

Sem vacinas, portanto, bilhões de pessoas poderiam simplesmente ver um novo muro se erguer diante dessas populações.

Para o diretor do Centro Africano de Controle de Doenças, John Nkengasong, seu continente apenas deve começar uma vacinação em meados de 2021.

África está despreparada, aponta OMS

Matshidiso Moeti, diretor regional da OMS para a África, acredita que um dos planos mais realistas é de iniciar uma vacinação de apenas 3% da população de cada país do continente e, só depois, passar a agir em 20% da sociedade.

O problema é que, segundo um levantamento da agência, menos da metade dos governos africanos começou a identificar quais seriam as populações prioritárias numa campanha de vacinação. Para a OMS, a África está longe de estar preparada.

Apenas 44% dos países tem uma coordenação em funcionamento para lidar com a vacinação e 76% deles não tem sequer um plano de financiamento para conduzir a operação. Mais de 80% deles tampouco contam com dados e monitoramento de sua população para uma campanha de imunização.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL