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Jamil Chade

Protesto na Liga gera frio na espinha dos cartolas: e se o ato se repetir?

Neymar faz protesto antirracista no recomeço do jogo entre PSG e Istanbul  - FRANCK FIFE / AFP
Neymar faz protesto antirracista no recomeço do jogo entre PSG e Istanbul Imagem: FRANCK FIFE / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/12/2020 18h00

O que cartolas mais temiam aconteceu. Jogadores de futebol descobriram o poder que têm e, diante de anos de frustração e da exigência de silêncio imposto sobre eles, os atletas começam a dar sinais de que não vão mais tolerar a mordaça.

Nesta semana, a decisão dos jogadores de Paris St-Germain e Istambul Basaksehir de abandonar o campo em protesto a uma declaração racista de um dos árbitros pode ter sido o ponto de inflexão. Por anos, entidades repetem um discurso vazio de que não toleram o racismo. Mas pouco fazem para combatê-lo.

Ao mesmo tempo, alertam aos jogadores que questões políticas e reivindicações sociais não cabem no esporte. Parte da imprensa por anos concordou com essa versão, martelando a ideia de que política e esporte não se misturam. Claro, uma saída sofisticada para permitir que, no esporte, apenas a política imposta por seus donos exista.

Em 2014, na Copa do Mundo no Brasil, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) decidiu que não iria adotar medidas nos estádios se registrasse algum caso. Nos anos seguintes, a entidade chegou a adotar regras. Mas a pena para quem violasse normas comerciais dentro do estádio era superior à imposta a quem violasse a dignidade de um ser humano.

Mesmo as multas baixas impostas pela Fifa foram criticadas pelas federações nacionais, tanto no que se refere ao racismo quanto à homofobia. Em 2016, num encontro da entidade em Zurique (Suíça), os cartolas sul-americanos tentaram convencer a secretária-geral da entidade — uma mulher africana e muçulmana - que tal comportamento da torcida era "cultural".

Muito simbolismo, pouquíssima mudança nos campos

A Uefa (União das Federações Europeias de Futebol) também proliferou promessas de campanhas contra o racismo. Fez os jogadores entrarem de mãos dadas, ler textos de apoio ao combate ao racismo e outros gestos. Todos simbólicos. Todos ineficientes. Entre 2019 e 2020, por exemplo, casos de abusos racistas no futebol europeu aumentaram em 53%.

Um estudo encomendado pela Associação de Futebolistas Profissionais no Reino Unido concluiu que 43% dos jogadores da Premier League tinham sofrido abusos racistas nas redes sociais em apenas um mês, em 2020.

Na indústria do futebol, porém, todos sabiam que as coisas apenas começariam a mudar quando os atletas assumissem o papel de dar um basta ao fenômeno. Se por anos a maioria dos craques optou por não desagradar patrocinadores, cartolas ou simplesmente não se meter em temas espinhosos, tudo indica que eles cansaram de esperar por ações prometidas pelas instituições do esporte.

George Floyd

Nas últimas semanas — e principalmente depois da morte de George Floyd nos Estados Unidos — atletas passaram a se ajoelhar em campo, repetindo o que já tinha sido iniciado nos esportes americanos.

A onda global colocou a Fifa de joelhos. A entidade indicou que não aplicaria sua norma de punir gestos políticos ou reivindicações por parte dos atletas. Era um primeiro sinal de que sabiam, internamente, que tais leis valiam em um outro mundo, em um outro século.

Mas o gesto também gerou reações que revelam a dimensão da resistência que o combate ao racismo enfrenta no futebol. Num recente jogo no Reino Unido, a torcida local vaiou jogadores do seu time que se ajoelharam antes de iniciar a partida.

Atletas podem vender mais que camisas, podem vender um novo mundo

Agora, no maior torneio de clubes do mundo — a Liga dos Campeões — esses atletas deram um passo a mais e podem ter rompido um paradigma. Houve uma tentativa de colocar panos quentes e obrigar os jogadores a voltar ao campo. Eles resistiram. Os tempos são outros e eles sabiam disso. Venceram uma batalha. Mas o combate será longo.

Num mundo que caminha para um reconhecimento da existência de um racismo sistêmico, estrutural e enraizado, a lei do silêncio imposta sobre os jogadores começa a rachar e mostrar a dimensão de sua obsolescência.

Atletas e seus nomes seguidos por milhões de internautas nas redes sociais não vendem apenas camisetas, carros, barbeadores ou marcas de xampu. Globalizados e sem fronteiras, eles têm em seus pés a possibilidade de vender um novo mundo.

Não por acaso, de seus camarotes e salões confortáveis, os donos da bola estão desde ontem preocupados. Sabem que se o gesto for repetido em outros cantos do mundo, não terão como frear.