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Jamil Chade

ONU explica corte de Bolsonaro em cúpula: era só para planos ambiciosos

24.set.2019 - Bolsonaro na ONU - REUTERS/Lucas Jackson
24.set.2019 - Bolsonaro na ONU Imagem: REUTERS/Lucas Jackson
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/12/2020 09h00Atualizada em 11/12/2020 17h04

Resumo da notícia

  • Plano de Ricardo Salles sobre emissões não convence e Itamaraty agora trabalha nos bastidores para contornar fiasco diplomático inédito
  • 77 líderes internacionais tomarão a palavra para anunciar metas climáticas

A ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou que, pelo menos por enquanto, o presidente Jair Bolsonaro não está na lista de líderes que participarão da cúpula do clima, marcada para este sábado, enquanto cientistas da Climate Action Tracker requalificam e rebaixam a situação dos compromissos ambientais do Brasil. Para o grupo, o país passa de proposições "insuficientes" para "muito insuficientes".

Num comunicado distribuído aos jornalistas em todo o mundo, a entidade apresentou uma lista de 77 chefes de governo e chefes de Estado que tomarão a palavra. Bolsonaro não faz parte e o Itamaraty trabalha nos bastidores para reverter a crise.

Numa coletiva de imprensa em Genebra (Suíça), nesta sexta-feira, a porta-voz da ONU, Alessandra Vellucci, também confirmou que, por enquanto, o Brasil não faz parte da lista.

Segundo ela, o que foi publicado é a "lista de palestrantes". "Temos 77 chefes de Estado e de governo programados para falar, assim como líderes do setor privado e sociedade civil", explicou.

"Vi que o Brasil não está nesta lista", confirmou. "Mas os três anfitriões - ONU, França e Reino Unido, deram aos estados orientações claras desde o começo de que as vagas para os palestrantes iriam para países e outros atores que pudessem mostrar mais ambição neste momento, seja na área de mitigação, adaptação ou resiliência, financiamento, seja por planos concretos ou outras ações", explicou.

"Isso significa que nem todos falarão. Mas não significa que outros países não possam ser adicionados ou que países que ainda preparam planos — atrasados pela pandemia — sejam bem-vindos nesse esforço importante", explicou. A entidade não descarta que, mesmo sem poder falar, o Brasil possa assistir ao evento. Mas sem tomar a palavra.

"A lista de países que falarão na Cúpula não significa que outros países não estejam agindo, ou não irão agir, no período que se avizinha. Haverá muitas oportunidades - e na verdade uma grande necessidade - para que tais países se apresentem com maior ambição e compromissos nacionais reforçados em 2021 antes da COP26", completa o comunicado.

Horas depois, a ONU atualizou a agenda da reunião de sábado. Uma vez mais, Bolsonaro não faz parte dos oradores e não há qualquer sinal da presença do Brasil no encontro global.

Itamaraty tenta reverter derrota diplomática

A exclusão é uma das piores derrotas diplomáticas desde o início de seu governo. O Itamaraty ainda busca uma solução para a crise política e, extraoficialmente, a chancelaria ainda aposta na inclusão do Brasil no evento. Para o governo, a situação não é definitiva e a esperança é que exista espaço para reverter.

A reunião virtual tem como meta marcar os cinco anos do Acordo de Paris. Mas os organizadores optaram por transformar o evento num marco dos compromissos dos governos e já preparar a cúpula de 2021, em Glasgow (Escócia). A condição para que um líder participe é que ele apresente novas e "ambiciosas" metas de redução de emissões ou de preservação da floresta.

Caso não houvesse nada para anunciar, a recomendação era que o governo deveria evitar a participação.

Plano de Salles não convence

O governo brasileiro, em meados da semana, apresentou suas metas de emissões para o ano de 2060 e submeteu seus planos para a ONU. Os objetivos foram considerados como inferiores ao que se esperava do Brasil. Entre os organizadores da cúpula, o entendimento foi que tais metas não eram suficientes para incluir o país na lista de participantes.

Numa primeira lista de oradores revelada nesta quinta-feira, os organizadores não colocaram o Brasil. A diplomacia nega que a ausência esteja confirmada e indica que estará presente.

Procurado, o Palácio do Planalto não se pronunciou e orientou a reportagem a buscar o Itamaraty. Nos bastidores, a coluna apurou que o governo tenta convencer os organizadores de que as metas são reais e que, portanto, o Brasil deveria ser incluído.

A lista, porém, traz algumas das principais economias do mundo: China, Europa, Japão, Canadá e Índia. Rússia e Estados Unidos não fazem parte da lista preliminar.

Na América Latina, estão confirmados países como Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Peru e Uruguai.

Postura de Bolsonaro, de ataque a nações, conta na avaliação, dizem negociadores

Ao longo dos últimos meses, Bolsonaro e seus ministros têm usado reuniões internacionais para atacar países estrangeiros, e raramente para apresentar projetos concretos sobre o que tem feito parar frear o desmatamento.

Tal postura, segundo revelam negociadores na ONU, não será bem-vinda na próxima cúpula. O desmatamento no Brasil colocou o governo de Jair Bolsonaro numa saia-justa inédita e numa encruzilhada internacional.

Em recente discurso nesta semana, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, mandou mensagens cifradas para Brasília. "Vemos sinais preocupantes", disse o português. "Alguns países estão usando a crise para desmontar proteções ambientais", alertou. No primeiro semestre, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, indicou que o governo deveria usar o momento da pandemia para "passar a boiada" no que se refere à desregulamentação.

Guterres também chamou a atenção de países que estão "expandindo a exploração de recursos naturais e desfazendo ambições climáticas".