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Jamil Chade

Cenas nos EUA soam alerta sobre futuro da democracia

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/01/2021 17h44

"Isso é uma tentativa de golpe". A frase nas redes sociais publicada pelo deputado republicano Adam Kinzinger poderia ser a de um filme de ficção, de terceira categoria. Horas depois, foi Joe Biden quem assumiu seu status de líder e alertou: "Neste momento, nossa democracia está sob um ataque sem precedentes". Ele ainda deixou claro: a responsabilidade é de Donald Trump. E concluiu com uma constatação: "A democracia é frágil".

A realidade é que as cenas transmitidas ao vivo para o mundo de um ataque frontal ao resultado de uma eleição na autoproclamada "maior democracia do mundo" colocaram a comunidade internacional em estado de choque.

Após um discurso de Donald Trump de que jamais iria aceitar o resultado da eleição, manifestantes invadiram o Congresso americano. Momentos depois, o senador Mitch McConnell alertou sobre o "espiral da morte" da democracia que se abatia sobre os Estados Unidos (EUA). Tiros foram disparados e pelo menos uma pessoa ficou ferida.

Nas capitais europeias e nas entidades internacionais, o temor não é exatamente a de que haja um golpe nos EUA, ainda que esse cenário não esteja completamente excluído diante da postura de Trump.

Mais preocupante que os fatos de hoje é o sinal que tal caos manda para a estabilidade do sistema político internacional e a sobrevivência da já questionada democracia em diversos continentes.

O temor, segundo um eurodeputado que pediu para não ser identificado, é de que tal gesto seja um sinal verde para que outros líderes populistas pelo mundo utilizem exatamente das mesmas táticas - e armas - para derrubar resultados das urnas. Uma receita para o caos social e revoltas.

Se nos EUA as instituições podem sobreviver a tais golpes em sua credibilidade e mesmo membros do partido de Trump se recusam a aceitar o comportamento do presidente, o mesmo cenário não poderia ser uma garantia em outras partes do mundo.

Nas entidades internacionais, as cenas de políticos sendo retirados do local, nuvens de gás, armas e bandeiras confederadas ainda estão sendo interpretadas como uma comprovação de que tais líderes populistas não têm qualquer apego à democracia. Para se manter no poder, estariam dispostos a minar o sistema, manipulando sua base mais radical.

Ao longo dos anos, esses grupos buscaram todos os meios possíveis para asfixiar a democracia. Jamais com tanques. Mas com manipulação de leis, manobras cuidadosamente trabalhadas, nomeações, censura, criação de realidades paralelas, ataques contra jornalistas, milícias digitais, esvaziamento de mecanismos de controle, a instrumentalização da mentira e a corrupção do poder.

Agora, deram o último passo. Tais cenas entrarão para a história e, com elas, uma pergunta: poderia a república ficar abalada de uma forma permanente?

Joe Biden e líderes europeus já iniciaram conversas para realizar uma cúpula para fortalecer a democracia em 2021. Nesta quarta-feira, ele deixou claro que os próximos quatro anos serão anos para "restaurar a democracia". Mas o que capitais no Velho Continente alertam é que tal trabalho terá de ser realizado também a partir das bases sociais e numa obra diária.

O que Trump, sua base e seus imitadores pelo mundo não toleram é que, numa democracia, o pilar de ouro é aceitar as regras do jogo. Não existe inimigo. Mas sim oposição. Não há morte, mas sim um jogo eleitoral em que o vencedor recebe o mandato de proteger a liberdade, os direitos e a vida, inclusive daqueles que não votaram por ele e foram derrotados.

Trump não poderia ser derrotado pelo vírus. Tinha de ser derrotado pelas urnas. Pela democracia. E foi. Agora, para muitos observadores internacionais, é a democracia que está em jogo. E não apenas nos EUA.