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Diogo Schelp

República Bananeira dos EUA, obra de Trump, tem dias contados

06 jan. 2021 - Arruaceiro trumpista fantasiado invade o Congresso dos Estados Unidos - SAUL LOEB/AFP
06 jan. 2021 - Arruaceiro trumpista fantasiado invade o Congresso dos Estados Unidos Imagem: SAUL LOEB/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

06/01/2021 18h47

Os Estados Unidos, a maior democracia do mundo (não em população, mas em tradição), tiveram seu dia de republiqueta latino-americana, com direito a arruaceiros com roupas excêntricas invadindo o congresso, tiros, parlamentares se trancando em seus gabinetes, vice-presidente sendo retirado às pressas pelo serviço secreto e ameaça de bomba nos comitês partidários.

Tudo porque o presidente Donald Trump não quer largar o osso, ou melhor, o cargo que perdeu em eleições que só ele, sua família e alguns fanáticos acreditam terem sido fraudadas. Mas isso não vai durar muito tempo.

A República Bananeira dos Estados Unidos tem data para acabar, mais precisamente em catorze dias, quando termina o mandato de Trump.

Até lá, ele ainda pode causar muita confusão. Depois que a vitória do democrata Joe Biden for certificada pelo congresso — o que não ocorreu nesta quarta-feira (6) por causa do tumulto no Capitólio —, Trump ainda poderá seguir inflamando seus apoiadores a se rebelar contra o resultado das urnas.

A própria cerimônia de posse de Biden no dia 20 poderá ter momentos de caos ou de constrangimento geral.

Mas qualquer tentativa de impedir a troca de governo não tem chance de prosperar. A razão é simples: Trump não tem meios para impor sua vontade à força.

Até o vice-presidente "cancelou" Trump

Os militares não estão do seu lado — ainda menos depois da arruaça no congresso, que obrigou o Exército a convocar a Guarda Nacional do Distrito de Columbia para garantir a ordem.

A classe política também não está do seu lado. Mesmo entre os republicanos é minoritário o grupo que se nega a aceitar a derrota. Um deputado republicano chegou a descrever as ações de Trump como tentativa de golpe. Seu vice, Mike Pence, encarregado de anunciar a certificação das eleições, já deixou claro que não vai afundar sua biografia junto com a de Trump — e até já parou de segui-lo no Twitter.

Boa parte da imprensa conservadora americana já está por aqui de Trump. Entre outros motivos porque sua recusa em aceitar os resultados da votação na Georgia prejudicou o desempenho dos candidatos republicanos do estado ao senado.

Com isso, os democratas, que já dominam a Câmara dos Representantes, terão exatamente a metade das cadeiras do Senado, o que lhes dá a maioria, pois a futura vice-presidente Kamala Harris terá o voto de minerva.

PIB dos EUA quer distância do golpismo

Os empresários também já anunciaram seu basta à insistência de Trump de se manter no poder. Mais de 170 CEOs de algumas das maiores empresas do país assinaram uma carta pedindo ao congresso que certifique a vitória de Biden.

E, acima de tudo, o povo tampouco está do lado de Trump, a não ser por uma parcela minoritária (mas perigosa) que acredita em suas teorias conspiratórias. Trump, não se pode esquecer, perdeu as eleições tanto no total de votos quanto no Colégio Eleitoral.

Existe, porém, método na aparente loucura do bilionário do ramo imobiliário que em 2016 venceu a presidência apresentando-se como outsider, alguém de fora do sistema político.

Trump dá mostras de que pretende passar os próximos quatro anos incitando sua base de apoiadores fieis contra o governo Biden. Recursos financeiros para isso ele tem. Trata-se de uma estratégia de autodefesa (ele corre o risco de responder a uma série de acusações na Justiça assim que deixar o cargo) e de sobrevivência política (para voltar ao poder em 2025, aos 79 anos).

Uma estratégia, diga-se, que tem por objetivo usar as massas como instrumento de chantagem política, como é próprio dos populistas. Coisa de República das Bananas.