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Jamil Chade

Relatório censurado mostra como Itália, com boa estrutura, sucumbiu à covid

Pessoas usam máscaras enquanto acendem lanternas de papel em memória daqueles que morreram devido ao surto da covid-19 em San Giorgio, Itália - ALESSANDRO GAROFALO/REUTERS
Pessoas usam máscaras enquanto acendem lanternas de papel em memória daqueles que morreram devido ao surto da covid-19 em San Giorgio, Itália Imagem: ALESSANDRO GAROFALO/REUTERS
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/01/2021 04h03

Resumo da notícia

  • Documento preparado pela OMS em maio alertava para uma resposta caótica da Itália à pandemia
  • Rapidez do vírus "se aproveitou" da indecisão de autoridades em evitar aglomerações e impactou o país
  • Texto foi retirado do ar, sob a justificativa de que trazia "erros". OMS jamais explicou quais eram os erros do documento
  • Relatório narra como no início da pandemia os profissionais de saúde e idosos foram vítimas da covid-19

Itália, 18 de fevereiro de 2020. Na pequena cidade de Codogno, perto de Milão, um homem de 38 anos se apresentou a um centro de saúde. Ele tinha tosse e sintomas de uma gripe. Saudável, sem nunca ter ido para a China e jovem, ele não se encaixava no perfil de pessoas que poderiam desenvolver a covid-19. O indivíduo recebeu uma receita para tomar antibióticos e preferiu não ser internado.

Um dia depois, ele voltou ao centro médico e, desta vez, sua condição era crítica. Foi imediatamente levado à UTI. Mas algo chamava a atenção dos médicos locais: como um jovem saudável teria desenvolvido uma pneumonia atípica e que não respondia aos tratamentos?

Mesmo sem que o protocolo recomendasse, os profissionais do hospital local decidiram fazer um teste de covid-19 no paciente. E o resultado deu positivo. Duas semanas antes, ele havia jantado com um amigo que acabava de retornar da China.

Aquele seria o primeiro caso oficialmente detectado no país e uma demonstração de que os sistemas de monitoramento criados pelo governo não eram capazes de identificar indivíduos que deveriam ter sido testados. Assustados, autoridades ampliaram os testes e, em 24 horas, descobriram outros 36 casos apenas na região de Milão.

O relato faz parte de um informe preparado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a Itália, país que foi o epicentro da pandemia em suas primeiras semanas no Ocidente. O documento, de maio, acabou sendo retirado do ar pela agência.

A reportagem do UOL obteve uma cópia do documento que faz um raio-X dramático de um país de joelhos diante do vírus. A avaliação ainda revela um governo despreparado, hospitais em caos e mortes. Uma das principais constatações era de que Roma ainda operava com um plano de contingência contra pandemia datado de 2006. Os autores do texto foram pressionados a mudar essa conclusão. Mas se recusaram e, desde então, o documento foi embargado.

O mesmo informe, porém, relata como as autoridades nacionais ou regionais jamais abriram mão de tentar salvar vidas e como, apesar dos obstáculos e despreparo, agiram com "criatividade" para tentar dar uma resposta. No documento, uma lista de medidas adotadas por Roma ou pelos governos das províncias é apresentada, numa demonstração de que não houve um comportamento negacionista diante da doença.

11.mar.2020 - Checagem de temperatura na fronteira entre Itália e Áustria durante a pandemia do novo coronavírus - Jan Hetfleisch / Getty Images - Jan Hetfleisch / Getty Images
11.mar.2020 - Checagem de temperatura na fronteira entre Itália e Áustria durante a pandemia do novo coronavírus
Imagem: Jan Hetfleisch / Getty Images

Governo foi lento, avaliam especialistas

Na avaliação dos especialistas, a reação do governo ainda assim foi tardia, com medidas mais drásticas sendo adotadas apenas um mês depois da declaração de emergência global, pela OMS. "As festividades carnavalescas estavam começando. As cidades estavam repletas de turistas, assim como as estações de esqui e os jogos de futebol, e as crianças iam à escola. Então, em 21 de fevereiro de 2020, tudo mudou muito de repente", apontou.

A mudança foi a constatação de que aquele adulto de apenas 38 anos vivia momentos críticos.

Parte do país passou das festividades para um lockdown no espaço de 24 horas. Inicialmente, onze municípios — 10 na região da Lombardia e um no Vêneto — foram fechados, com entrada proibida por fora e movimento limitado por dentro. Os serviços públicos foram suspensos, assim como os eventos.

Mas o vírus já tinha se espalhado e, seguindo um protocolo inicial, muitos portadores do vírus que estavam assintomáticos nunca seriam testados.

Gestão descentralizada, dividida entre esferas federal e estadual, prejudicou

Um dos obstáculos foi a gestão descentralizada da pandemia, em suas primeiras semanas. Se os decretos vinham de Roma sobre como realizar testes, rastrear contatos e isolar pessoas, cabia a cada região a implementação das regras.

Lentas e caóticas, as autoridades logo viram "o crescimento exponencial da epidemia superando a capacidade de testes" e como, nas áreas mais afetadas, rastrear passou a ser impossível.

"Até hoje, a cadeia de transmissão que leva à transmissão comunitária na Itália ainda não é bem compreendida", admite a OMS. "O que se sabe é que, rapidamente, o número de pessoas que necessitam de cuidados intensivos de emergência aumentou exponencialmente. Após alguns dias, hospitais de primeiros socorros não tinham mais leitos disponíveis e se viram confrontados com a evacuação de pacientes para unidades de UTI em outros hospitais", indicou.

Naquele momento, a Itália contava com 5,2 mil leitos de UTI. No início de abril, 4 mil deles já estavam ocupados com pessoas contaminadas pelo vírus.

Paciente com coronavírus recebe tratamento em hospital da Itália - Antonio Masiello/Getty Images - Antonio Masiello/Getty Images
13.abr.2020: Paciente com coronavírus recebe tratamento em hospital da Itália
Imagem: Antonio Masiello/Getty Images

A corrida por leitos e respiradores

"A situação de crise repentina causou algum pânico e sobrecarregou as capacidades de rastreamento de contatos", disse. Quase 20% dos pacientes internados precisariam de duas semanas ou mais de cuidados na UTI e 88% deles precisaram de respiradores.

Os centros de saúde fizeram esforços para acomodar todos os pacientes. Mas isso provou ser uma batalha perdida, com efeitos colaterais negativos. Uma dessas consequências foi a elevada taxa de contaminação entre profissionais de saúde, desprotegidos.

"De repente, os hospitais estavam recebendo multidões de pacientes e o desafio se tornou a forma de lidar com demandas concorrentes — salvar vidas, lidar com a carga de trabalho cada vez maior, mobilizar recursos, garantir pessoal e segurança do paciente, e enfrentando a súbita percepção de que algo estava acontecendo pelo qual eles não estavam preparados", constatou o relatório.

Três semanas depois da eclosão da crise, o governo não teve outra alternativa senão abrir os cofres e destinar 600 milhões de euros para contratar 20 mil novos profissionais de saúde. Médicos aposentados foram solicitados a voltar ao trabalho e estudantes de medicina do último ano também passaram a trabalhar de forma integral.

Contaminação de médicos e falta de equipamento

Naquela primeira onda da covid-19, 10% de todos os contaminados estavam entre os profissionais de saúde. Em pouco mais de um mês, 153 médicos morreram. De acordo com a avaliação, porém, muitos se recusavam a ser testados, já que isso significaria que teriam de eventualmente ser isolados e deixar seus postos de trabalho em um momento crítico para a sociedade.

De acordo com o levantamento, os hospitais tinham falta luvas, equipamentos médicos, máscaras, respiradores, óculos de proteção, protetores faciais e aventais.

Algumas regiões ofereceram hospedagem em hotéis ao pessoal de saúde preocupado com a transmissão para suas famílias. Se os riscos de infecção em ambientes hospitalares eram claros para todos, tal consciência não era evidente na sociedade.

Aos poucos, a Itália conseguiu equipar seus hospitais, contratar médicos e colocar protocolos em funcionamento. "Ainda que a viagem [a uma solução] fosse acidentada e a contagem de mortos continuasse espantosa, havia um lampejo de esperança de que todas essas mudanças e todo o sacrifício logo dariam frutos", diz o documento.

Caixões são armazenados em igrejas, na região de Bérgamo, na Itália  - Piero Cruciatti/AFP - Piero Cruciatti/AFP
31.mar.2020: Caixões são armazenados em igrejas, na região de Bérgamo, na Itália
Imagem: Piero Cruciatti/AFP

Residências para idosos foi "ponto cego" no contágio inicial

Mas não demorou para que o país descobrisse que existiam os "pontos cegos": as residências de idosos e doentes que tinham sido ignoradas e se transformaram em uma crise paralela.

"O risco da covid-19 para residentes e cuidadores foi mais subestimada nas primeiras semanas da epidemia", admitiu OMS, apontando como surtos silenciosos apareceram nessas comunidades fechadas.

No total, o país conta com 7.400 instalações desse tipo, abrigam quase 500 mil idosos, pessoas afetadas por distúrbios mentais e pessoas com deficiências. Hoje, admite-se que estas instalações sofreram mortalidade excessiva já nas duas primeiras semanas de fevereiro.

"Levou algum tempo até que as autoridades percebessem completamente a extensão deste problema crescente. Naquela época, eles estavam lutando para lidar com o súbito e esmagador afluxo de pacientes aos hospitais e sua atenção estava voltada para o explosivo crescimento das fatalidades hospitalares. A falta de ligação entre a notificação de óbitos em hospitais e em instituições de assistência de longo prazo atrasou a conscientização", constatou a OMS.

Visitas de parentes levaram covid-19 para dentro de asilos

O perigo da epidemia — para os residentes, funcionários e famílias — não foi imediatamente reconhecido e procedimentos e treinamento chegaram tarde e de forma aleatória.

De acordo com o informe, por semanas as visitas de parentes de idosos continuaram, o que significou que o vírus teve muitas oportunidades de entrar nessas comunidades fechadas de pessoas vulneráveis.

Em março, algumas dessas instalações foram até utilizadas para hospedar pacientes da covid-19 que não tinham sido autorizados a ir para casa, mas não podiam mais ficar em hospitais superlotados, onde as camas tinham de ser liberadas. Foi só no dia 8 de março que o governo decretou a proibição de visitas. Quase um mês e meio depois da declaração de emergência global, pela OMS.

Nas mais de cem páginas do informe, a agência revela como a pandemia teve um amplo impacto mental e social, além de econômico para a Itália. Mas também indicou como a crise sanitária leva a uma diminuição do número de visitas de emergência aos hospitais para o atendimento de outras doenças. O resultado: mais mortes.

OMS censurou documento temendo implicação de funcionários

Também foram observadas diminuições substanciais nos departamentos de emergência. Uma associação de pacientes com câncer no pâncreas ainda destacou como houve uma queda de até 37% nas visitas de doentes. 40% das visitas de acompanhamento foram adiadas e, o que é mais significativo, dois terços das cirurgias foram adiadas para uma data posterior.

"Pelo menos 100.000 pacientes idosos com condições de saúde subjacentes não puderam ter acesso aos centros de saúde em seus dias de atendimento", constatou o documento.

No pico da doença, quase mil pessoas morriam por dia na Itália. "Por mais chocantes que sejam estes números, eles subestimam o verdadeiro peso da epidemia", afirma o informe censurado. Naquele momento, a Itália somava 38 mil mortos. Hoje, quase um ano depois, são mais de 75 mil mortos e, no mundo, 1,8 milhão de óbitos.

Oficialmente, a OMS insiste que apenas aboliu o documento por "erros factuais". Mas não explica nem quais são esses erros e nem se atreve a corrigi-los. A entidade ainda temia que seus funcionários fossem convocados a prestar depoimentos em CPIs que começam a ganhar forma no Parlamento italiano ou em investigações da Justiça. O informe, portanto, precisava desaparecer. Seus autores denunciaram a atitude da agência, alegando que uma censura significaria que pessoas poderiam morrer. O objetivo do informe era mostrar aos demais países o que falhou na Itália para ajudar outros governos a evitar o mesmo destino nos meses que se seguiram. Naquele momento, a Europa vivia o fim da primeira onda.

"A Itália tem um dos sistemas de saúde mais fortes, mas quando a covid-19 chegou à sua porta, ela levou esse sistema quase ao colapso. E isto fez o mundo entrar em pânico", indicou o informe. A constatação de muitos governos era de que se o país, com sua ampla rede de saúde, estava tendo dificuldades diante do vírus, o pior estaria por vir em outras partes do mundo. E veio.