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Jamil Chade

Biden coloca OMS como "líder" na resposta à pandemia e isola Brasil

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

21/01/2021 06h24Atualizada em 21/01/2021 17h35

Resumo da notícia

  • Governo americano volta à OMS e Fauci anuncia que participará de aliança de vacinas, a Covax, para distribuir imunizante para países mais pobres
  • Em decisão executiva, Casa Branca buscará "fortalecimento" da OMS
  • Carta de Biden para ONU diz que agência tem "papel crucial" na luta contra o vírus
  • Atitude da Casa Branca marca um afastamento em relação ao posicionamento do Brasil nos organismos internacionais

Menos de 24 horas depois de assumir o poder nos Estados Unidos (EUA), o governo de Joe Biden faz um gesto poderoso de retorno à OMS (Organização Mundial da Saúde) e anuncia que irá integrar a aliança mundial de vacinas contra a covid-19, a Covax, para garantir que imunizantes cheguem aos países mais pobres.

Na manhã desta quinta-feira, Anthony Fauci, participou por vídeo pela primeira vez do Comitê Executivo da agência internacional, declarando que a OMS é "líder" na luta global contra a pandemia. Chamando Tedros Ghebreyeus de "querido amigo", Fauci ainda anunciou que quer o fortalecimento e reforma da agência, e garante vai cumprir suas obrigações financeiras com a OMS.

Ao se unir à aliança de vacinas, a Casa Branca dá esperanças à direção da OMS de que o vácuo de imunizantes nos países em desenvolvimento comece a ser superado. Hoje, praticamente todas as doses aplicadas contra a covid-19 ocorreram em países ricos e alguns poucos emergentes.

Segundo Fauci, a operação para a distribuição de vacinas precisa ser "multllateral", um termo usado de forma insistente em seu discurso e numa sinalização de uma mudança radical na política externa de Washington.

Para o representante da Casa Branca, o novo governo americano irá trabalhar de forma "construtiva" para "reformar e fortalecer" a OMS. Mas também deixou claro que as investigações conduzidas pela entidade sobre a origem do vírus precisam ser "claras e robustas".

Nesta semana, uma equipe internacional está em Wuhan, depois de meses de negociações com o governo chinês.

"Esse é um dia bom para a saúde global e para a OMS. O papel dos EUA é crucial e mando meus agradecimentos ao presidente Biden", respondeu Tedros, diretor-geral da entidade. "Temos de trabalhar como uma família e damos as boas-vindas para o retorno dos EUA à família", insistiu.

Europa também comemorou. "É o momento de reforçar a aliança entre Europa e EUA para fortalecer e reformar as entidades internacionais", disse a delegação da Áustria, em nome do bloco.

O Reino Unido aplaudiu a decisão de dar apoio "financeiro, científico e político" ao processo de distribuição de vacinas. "Moralmente e cientificamente, não podemos apenas vacinar nossas populações", declarou Londres.

O governo chileno deu as boas-vindas à decisão de Biden e comemorou o compromisso da Casa Branca com o "multilateralismo". Em nome dos 47 países da África, o governo do Gabão declarou que a região felicita os americanos por sua atitude de retorno à entidade.

Já a embaixadora do Brasil na OMS, Maria Nazareth Farani Azevedo, tomou a palavra durante o debate para dizer que estava "feliz" ao ver a intervencão de Fauci. "O Brasil está pronto para cooperar com os EUA e com todos os membros da OMS no fortalecimento da OMS e liderar a reforma", disse.

Ruptura com Trump e afastamento de postura do Brasil

Mas a postura de Fauci representa uma ruptura em relação ao posicionamento de seu antecessor, Donald Trump, mas também um sinal de afastamento da atitude do governo de Jair Bolsonaro. O Itamaraty, apesar de não ter saído da OMS, adotou ao longo dos meses um tom de recusa em reconhecer o papel central da agência num esforço global para lidar com o vírus.

O governo brasileiro ainda se aliou a Trump para apresentar uma proposta conjunta sobre como reformar a OMS. O projeto de Brasília e Washington havia sido considerado por muitos dentro da agência e entre diplomatas estrangeiros como uma maneira de garantir que governos nacionais tenham mais controle sobre a OMS. E não necessariamente uma ampliação dos poderes da agência.

Não há, hoje, uma definição se Biden vai querer manter a aliança com Bolsonaro na proposta de reforma da OMS ou se irá se unir a uma segunda opção, liderada pela Europa. Bruxelas defende também uma reforma da agência, mas para garantir maiores poderes ao multilateralismo.

No Itamaraty, uma das orientações desde o início da pandemia era o de evitar que a crise sanitária representasse uma maior transferência de poderes para a OMS. O termo "multilateralismo" também passou a ser evitado, com o próprio chanceler indicando que a palavra poderia ser uma ideologia. O argumento central é de que entidades "globalistas" seriam uma ameaça para a soberania nacional e que, eventualmente, fariam parte de um avanço infiltrado de comunistas.

Enquanto o vírus matava, Bolsonaro proliferou críticas contra a agência e seus aliados e blogueiros disseminaram desinformação sobre a atuação da entidade.

Nas primeiras reuniões ainda em 2020 na OMS, o governo evitou enviar delegações de ranking mais elevado e o chanceler Ernesto Araújo insistia a resposta à pandemia era "nacional". "Existe uma falácia que diz que problemas globais exigem soluções globais", disse o chanceler.

Em outra ocasião, ele atacou a "carência de base científica" da resposta da OMS, enquanto o governo insistia em defender o uso da cloroquina. "Aparentemente há falta de independência da OMS, falta de transparência e, sobretudo, coerência em orientações sobre aspectos essenciais. A origem do vírus, o compartilhamento de amostras, o contágio por humanos, os modos de prevenção, a quarentena, o uso da hidroxicloroquina, a indumentária de proteção e agora na transmissibilidade por assintomáticos", disse. "

Trump foi além da postura do Itamaraty e havia retirado os EUA da entidade e congelado o repasse de recursos, como retaliação diante das falhas da OMS diante da pandemia e de sua suposta aproximação ao governo de Pequim.

Ainda na quarta-feira, Biden escreveu ao secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, revertendo a decisão de seu predecessor e declarando que a OMS "tem um papel crucial na luta mundial contra a pandemia, assim como em outras ameaças para a saúde global".

Numa de suas primeiras ordens executivas assinadas também na quarta-feira, Biden declarou que um dos objetivos de sua administração é a de "fortalecer" a OMS.

Casa Branca agradece OMS por sua ação global

Fauci, diante dos demais países, fez ainda questão de dizer que a nova atitude dos EUA era também uma vontade de cientistas e trabalhadores do setor de saúde. Num discurso radicalmente diferente do que se ouvia da delegação americana desde o início da crise, o representante de Biden "agradeceu" a OMS por seu trabalho de "liderar a resposta global à pandemia".

"Essa entidade reuniu a comunidade cientifica para acelerar vacinas, terapias e diagnósticos, conduziu briefings, rastreou com autoridade o vírus, deu milhões de equipamentos para dezenas de países e trabalho com nações na luta contra a pandemia", afirmou.

Além de dinheiro, o governo Biden vai voltar a autorizar os funcionários americanos a colaborar com a OMS. Para a agência, tal gesto é considerado como "fundamental" para ampliar a capacidade técnica da organização.