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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Distribuição falha e mundo vive "apartheid de vacinas"

Imagem do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, com valas preparadas para o sepultamento de vítimas da Covid - Nelson Almeida/AFP
Imagem do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, com valas preparadas para o sepultamento de vítimas da Covid Imagem: Nelson Almeida/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

12/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • De cada quatro pessoas nos países ricos, uma já foi vacinada. Nos países pobres, a taxa é de 1 para cada 500
  • Grupo de países mais pobres do mundo recebeu apenas 0,2% das vacinas já distribuídas
  • Covax planejava enviar 100 milhões de doses no primeiro trimestre. Mas destinou apenas 37 milhões
  • OMC reúne governos e empresas nesta semana em busca de um novo pacto global

A promessa de uma ampla distribuição de imunizantes contra a covid-19 entre os países mais pobres patina e a comunidade internacional se depara com o que governos e instituições já chamam abertamente de um "apartheid de vacinas". Nesta semana, a OMC (Organização Mundial do Comércio) organiza uma reunião entre governos e empresas, na busca por uma solução. Mas o temor de países emergentes é de que a distribuição de doses só comece quando americanos e europeus tenham concluído parte de suas campanhas de vacinação.

No início de 2021, quando as primeiras vacinas começavam a ser administradas, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estipulou que, em cem dias, todos os países do mundo deveriam iniciar suas campanhas de imunização, uma meta que pretendia colocar pressão sobre governos e empresas.

A data chegou e, de fato, mais de 190 países conseguiram dar início ao processo. Mas com um número de doses insuficientes, dezenas desses locais não contam sequer com vacinas para atender aos médicos e enfermeiras. Enquanto isso, em alguns países ricos, jovens já estão sendo vacinados.

Os dados da OMS revelam a disparidade. Até sexta-feira, das 700 milhões de doses tinham sido distribuídas pelo mundo. Mas 87% foram destinadas aos países ricos e as principais economias emergentes, incluindo Índia, China ou Brasil. Já os países mais pobres do mundo receberam apenas 0,2% das vacinas.

Se considerados apenas os países ricos, que representam 13% da população mundial, eles acumulam 49% de todas as vacinas. Já os 29 países mais pobres do planeta somaram apenas 0,1% das doses.

Em média um a cada quatro habitantes dos países mais ricos já foi vacinado. Nos países mais pobres, porém, apenas uma a cada 500 pessoas foi imunizada.

De acordo com a diretora-regional da OMS para a África, o continente com 1,2 bilhão de pessoas recebeu até agora apenas 2% das vacinas no mundo.

Sabendo do risco que se corria de uma desigualdade estrutural no planeta se traduzir em falta de vacinas para bilhões de pessoas, a OMS criou ao lado de certos governos a Covax, uma espécie de consórcio cujo objetivo é o de distribuir 2 bilhões de doses aos países mais pobres do mundo.

A meta para o primeiro trimestre do ano era de fazer chegar 100 milhões de vacinas a essas pessoas. Mas, até agora, apenas 37 milhões foram enviados.

A compra de doses pelos países ricos, a escassez de produção, os problemas enfrentados por laboratórios na Índia e Coreia do Sul, as polêmicas sobre as doses da AstraZeneca e a falta de recursos internacionais minaram o projeto.

De acordo com a OMS, os governos estão prontos para receber e começar a distribuição de vacinas. "O problema não é esse. Mas a falta de doses", alertou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, que já chamou a disparidade de "grotesta" e "escândalo moral".

Hage Geingob, presidente da Namíbia, tem sido uma das vozes mais enfáticas. "Depositamos nossa confiança nas vacinas. Mas ficamos de fora. Há um apartheid de vacinas. Lutamos contra o apartheid e agora lutamos de novo", alertou. De acordo com os dados oficiais, os americanos distribuíram para sua população 15 vezes mais vacinas que todo o continente africano.

Outro governo que usa o mesmo termo é o do Quênia que, há poucos dias, foi incluído na lista de países barrados de entrar no Reino Unido.

A resposta das autoridades de Nairobi foi clara. "O Quênia continua a ver que países produtores de vacinas pelo mundo estão começando a promover uma forma de nacionalismo de vacinas e discriminação que apenas pode ser descrito na forma de um apartheid de vacinas", escreveu o Ministério das Relações Exteriores do país.

"Esse apartheid, somado aos apelos por passaportes de vacinação, amplia as existentes desigualdades e apenas torna ainda mais difícil a vitória na guerra contra a pandemia", diz.

Martin Kimani, embaixador do Quênia na ONU, também atacou e alertou que o mundo está provado que "solidariedade é apenas uma palavra". "Primeiro veio o nacionalismo de vacinas e agora temos o apartheid de vacinas", insistiu.

Winnie Byanyima, diretora-executiva da UNAids, ainda alertou que, depois de líderes mundiais terem usado a tribuna da ONU para declarar que defendiam a ideia de a vacina ser um "bem público mundial", a realidade é hoje muito diferente.

"Hoje estamos testemunhando um apartheid de vacinas que apenas serve aos interesses das empresas farmacêuticas, poderosas e lucrativas", disse.

Amplo acordo

Para o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, a desigualdade na distribuição das vacinas contra a covid-19, gestos políticos e nacionalismos podem adiar o fim da pandemia.

O esforço, neste momento, é de costurar um amplo acordo entre países fabricantes de vacinas, empresas e entidades para garantir a distribuição de doses.

A estratégia está sendo a alternativa que entidades como a OMC encontraram para driblar o impasse instaurado nas negociações para a suspensão de patentes da vacina, como queriam sul-africanos e indianos. A ideia desses governos era de permitir que versões genéricas dos imunizantes fossem produzidas.

Mas os países ricos e o Brasil rejeitaram a ideia, abrindo uma ampla crítica por parte de entidades da sociedade civil.

Durante a última semana, a diretora-geral da OMC, Ngozi Iweala, usou sua passagem pelos EUA nas reuniões do FMI para tentar fechar um pacto maior, envolvendo a doação de milhões de doses. Países pobres, porém, alertam que a iniciativa é insuficiente, já que depende da boa vontade dos governos de economias ricas e das multinacionais.

O temor também é de que essa doação ocorra apenas depois que países ricos tenham vacinado ampla parte de suas populações.

Encontro com governos e indústrias

Numa tentativa de buscar um consenso, Ngozi Okonjo-Iweala organiza para o dia 14 de abril uma reunião como ministros, entidades internacionais e CEOs de multinacionais. Há, porém, um temor entre países emergentes de que a reunião, que não será pública, apenas reforce a ideia de que a suspensão de patentes não é uma opção.

Para Ngozi, não se trata apenas de uma questão moral. "Uma campanha equitável de vacinação é o melhor plano de estímulo que podemos ter", disse. "Enquanto um número grande de pessoas estiver excluída da vacina, o crescimento da economia mundial será sufocado", afirmou.

Durante as negociações, governos alertaram que, se não houver uma mudança radical no plano internacional de vacinação, alguns países apenas terão atingido 20% de suas populações em meados de 2022 e uma imunidade de rebanho em 2023.

Mas, do lado da indústria, o tom é apenas o de celebração. Na semana passada, ao registrar a entrega de vacinas ao 100o país, o CEO da AstraZeneca, Pascal Soriot, não fez qualquer referência à disparidade na distribuição.

""Estou orgulhoso de que o fornecimento de nossa vacina seja responsável pela grande maioria das doses entregues através da COVAX no primeiro semestre deste ano", disse. "Mais de 37 milhões de doses de nossa vacina foram entregues até hoje que estão protegendo as populações mais vulneráveis em todo o mundo. Junto com nossos parceiros da COVAX, continuamos a trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana para cumprir nosso compromisso inabalável de acesso amplo, equitativo e acessível", disse.

O presidente da Pfizer Albert Bourla usou do mesmo tom. "Estamos orgulhosos de trabalhar em conjunto com as instalações e todos os seus parceiros e permanecemos firmemente comprometidos em trabalhar em prol da visão compartilhada de acesso eqüitativo para que todos ponham fim a esta pandemia", disse.

Num comunicado, a Covax admitiu as dificuldades e apontou que o abastecimento vive um obstáculo de produção. Mas acredita que terá como manter entregas até meados de 2021.

Seth Berkley, CEO da Gavi, a Aliança de Vacinas, apontou que o desafio é "assustador". "Só estaremos seguros quando todos estiverem seguros e nossos esforços para acelerar rapidamente o volume de doses dependem do apoio contínuo dos governos e dos fabricantes de vacinas. Como continuamos com o maior e mais rápido lançamento global de vacinas da história, este não é o momento para complacência", completou.