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Jamil Chade

Carta de Bolsonaro para Biden foi "oportunidade perdida", diz ex-negociador

Delegado do Amazonas enviou ao STF notícia crime contra Salles - Reprodução
Delegado do Amazonas enviou ao STF notícia crime contra Salles Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/04/2021 10h56

"O governo de Jair Bolsonaro perdeu uma oportunidade de recolocar o Brasil na climática." O alerta é do ex-negociador agrícola brasileiro Pedro de Camargo Neto, que ocupou por anos no governo e em entidades privadas a função de abrir mercados para a exportação do país.

Comentando a carta que o presidente brasileiro enviou para as autoridades americanas sobre temas climáticos às vésperas da cúpula organizada na semana que vem pelo presidente americano, Joe Biden, Camargo deixou claro que tal gesto não será suficiente para restabelecer a confiança internacional.

"Foram cometidos erros e era o momento de iniciar correções", disse Camargo, que foi ainda secretário de Produção do Ministério da Agricultura no governo de Fernando Henrique Cardoso. "O grau de ilegalidade nos desmatamentos identificados na região Amazônica destrói a credibilidade do país. Dificulta qualquer iniciativa de avanço ou negociação internacional futura", avaliou o ex-negociador, responsável por abrir disputas comerciais contra a UE e os EUA por conta dos subsídios agrícolas desses governos.

Hoje, segundo ele, a ausência de credibilidade do Brasil no exterior "permite hoje ainda todo tipo de críticas, mesmo que muitas vezes infundadas".

Nesta semana, além das negociações e gestos com os EUA, o Brasil também manteve reuniões com a UE sobre temas ambientais. As autoridades de Bruxelas deixaram explícitas as críticas em relação ao posicionamento brasileiro, cobraram mudanças e alertaram que a confiança teria de ser "reconstruída".

Para Camargo, "faltou ambição" no comunicado sobre a Contribuição Nacional Desenvolvida (NDC), sinalizando as metas de redução de emissões de carbono a serem apresentadas na COP26. A entrega dos documentos ocorreu em dezembro de 2020, levando a cúpula da ONU a rejeitar qualificar o projeto como ambicioso e indicando suas insuficiências.

Na avaliação do ex-negociador, agora seria o momento para retomar a questão. "Alterar critérios e metodologia de cálculo para comparações com as reduções futuras de emissões reduziu nossa credibilidade", alertou.

"Propor aceitar antecipar a data do compromisso de zerar emissões líquidas mediante desenxabida compensação financeira desmonta a posição de liderança que o país vinha desenvolvendo", indicou o ex-negociador.

"Brasil é altaneiro e não negocia seu potencial de desenvolvimento", critica. "O Brasil deveria pressionar o mundo a assumir maiores e antecipados compromissos. É o país do clima, e assim deve ser percebido pelo mundo", defendeu.

Na avaliação de Camargo, na carta do governo para Biden "permaneceu o posicionamento de priorizar a vinda de recursos financeiros, os créditos de carbono".

"Esses fatalmente devem beneficiar o Brasil, porém nunca deveriam ser a prioridade claramente mantida na carta", lamentou.

"Os montantes de créditos de carbono que podem vir nunca compensarão os prejuízos que poderemos ter. Não somos os responsáveis, mas poderemos ser os perdedores no aquecimento global. A extensão territorial e o papel relevante da agricultura e florestal nos colocam em perigo. Mudanças pequenas no regime de chuvas podem nos prejudicar muito", completou.