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Jamil Chade

ONG de reverendo que negociou vacina não aparece em registro oficial da ONU

3.ago.2021 - Reverendo Amilton de Paula chora durante depoimento à CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
3.ago.2021 - Reverendo Amilton de Paula chora durante depoimento à CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

04/08/2021 17h07

Ao contrário do que deu a entender o reverendo Amilton Gomes de Paula, sua entidade não conta com nenhum registro de que tenha status oficial na ONU. No banco de dados do organismo internacional consultado pela coluna, não existe qualquer aprovação ou registro, muito menos que permita a ong do reverendo usar os brasões das Nações Unidas.

Apesar de a ONU contar com mais de 700 entidades registradas na América Latina e 24 mil pelo mundo, não há no banco de dados qualquer referência à iniciativa de Gomes de Paula.

Nesta semana, o reverendo prestou depoimento na CPI da pandemia e sua convocação se deu por sua atuação para intermediar um suposto acordo para a venda de vacinas.

Gomes de Paula fundou no final dos anos 90 a Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos (Senar), sem qualquer função relacionada com imunizantes. No ano passado, a entidade ganhou um novo nome: Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah).

Durante a CPI, ele foi questionado pelo senador Humberto Costa sobre o uso de brasões da ONU nos documentos oficiais da entidade.

"Eu queria, até para ilustrar o que realmente V. Sa. representa... A Senah tem nos seus documentos os brasões das Forças de Paz da ONU, da Ordem dos Cavaleiros de Malta, da Missão de Relações Internacionais da ONU, da Missão Diplomática de Relações Internacionais dos Estados Unidos. Tudo isso dá um verniz de confiabilidade para qualquer instituição. Eu queria saber se a Senah possui autorização formal para ostentar esses brasões", questionou o senador.

"É, nós temos", respondeu o religioso. "A sociedade civil organizada são vários institutos, várias associações que fazem esse trabalho em nível, assim, internacional. Então, de presidente para presidente de instituição, nós cedemos nossos logos", explicou.

Humberto Costa então replicou:

"Mas a ONU?"

Gomes de Paula voltou a explicar:

"A ONU, nós estamos dentro do Ecosoc. O Ecosoc é essa plataforma, nós entramos na plataforma do Ecosoc, nos inscrevemos, enviamos toda a nossa documentação e ali deixamos essa plataforma funcionando para atender os projetos humanitários. Em 2019, nós pegamos o estatuto da ONG e nos inscrevemos para participar do Ecosoc", disse.

Ao contrário do que o reverendo disse, o Ecosoc não é uma plataforma. Trata-se do Conselho Econômico e Social da ONU.

Várias entidades brasileiras de fato contam com esse status, o que permite que as ONGs possam ter voz dentro da ONU, apresentar propostas, fazer discursos, promover lobby por causas reconhecidas pela entidade e circular pelos corredores da entidade em Nova Iorque ou Genebra.

Mas isso apenas pode ser feito depois de um processo de aprovação que pode levar anos e que envolve uma chancela de governos.

Em nenhuma hipótese, mesmo aprovada na ONU, uma ONG pode usar os brasões da entidade internacional. Num dos documentos oficiais, a ONU declara que tal uso é "proibido".

Uma das entidades brasileiras que busca esse status é a ANAJURE, Associação Nacional de Juristas Evangélicos e que já fez atos de homenagem para a ministra Damares Alves, também religiosa. Mas governos estrangeiros vêm colocando obstáculos e a tentativa da associação, pelo menos por enquanto, não trouxe resultado final.