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Jamil Chade

Defesa de Lula acusa Lava Jato de influenciar posição de Bolsonaro na ONU

24.set.2019 - Bolsonaro na ONU - REUTERS/Lucas Jackson
24.set.2019 - Bolsonaro na ONU Imagem: REUTERS/Lucas Jackson
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

01/09/2021 08h54Atualizada em 01/09/2021 10h32

Numa petição submetida ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quarta-feira, a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusa os procuradores que formaram parte da força-tarefa da Operação Lava Jato de tentar articular uma posição do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) na ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o petista.

A acusação tem como base novos trechos de conversas e mensagens entre os procuradores, e que fazem parte do material apreendido na Operação Spoofing. O Ministério Público Federal foi procurado pela reportagem sobre o tema. Sua resposta será incluída na coluna, uma vez que tenha sido enviada.

Em 2016, a defesa de Lula apresentou uma queixa ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, alegando violações no processo contra o ex-presidente brasileiro e questionando a imparcialidade do então juiz Sergio Moro. O caso ainda tramita em Genebra.

Na petição ao Supremo, a defesa de Lula indica que "novos diálogos e documentos extraídos do material oficial antes referido (Operação Spoofing), reforçam que os membros da 'força-tarefa da Lava Jato', além de terem praticado grosseiras e irreversíveis violações aos direitos humanos do Reclamante [Lula], também assumiram a própria linha de manifestação do Estado brasileiro perante o Comitê de Direitos Humanos da ONU, com a aquiescência dos órgãos de Estado envolvidos".

"Trata-se de uma verdadeira captura ou aparelhamento do Estado que também ocorreu no plano nacional para viabilizar a prática de lawfare especialmente contra o Reclamante [Lula]", argumentam.

Segundo a petição, em diálogos mantidos entre os procuradores da República entre 14 a 16 de janeiro de 2019, é "possível verificar que eles realizaram encontros e reuniões com órgãos de Estado, como AGU e CGU, para tratar, dentre outras coisas, de 'Casos no exterior', inclusive o Caso 'Lula ONU'".

Num texto escrito pelo procurador Deltan Dallagnol, a defesa de Lula indica como ele orientou três procuradores a tratar do tema.

Casos no exterior: eles falariam com Diplomata e depois propõe reunião com Ernesto.

Ernesto, segundo a defesa de Lula, seria Ernesto Araújo, então chanceler de Bolsonaro.

O texto de Deltan ainda segue:

Falarão diretamente na reunião com Bolsonaro sobre caso do Lula na ONU.

Poucas semanas depois dos encontros, o governo brasileiro de fato submeteu ao Comitê das Nações Unidas novas informações, no que foi considerado pela defesa de Lula como um gesto para arrastar o processo em Genebra.

Para a defesa, "os procuradores da República da extinta 'força-tarefa da Lava Jato' estavam conduzindo a posição do Estado brasileiro perante a ONU no comunicado individual apresentado em favor do Reclamante".

"Para isso, os citados membros do MPF passaram a promover gestões políticas com o objetivo de capturar ou de aparelhar órgãos de Estado — na mesma linha do que se verifica nas dezenas de petições já trazidas a estes autos pelo Reclamante", denunciam os advogados Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins.

"Vale dizer, além de terem capitaneado acusações e condenações indevidas contra o Reclamante, os membros da 'Lava Jato' interferiram politicamente até mesmo na posição do Estado brasileiro no comunicado individual que tramita no Comitê de Direitos Humanos da ONU — interagindo, para essa finalidade, com diversos atores políticos antagônicos ao Reclamante", alegam.

A defesa indicou ainda que vai enviar a mesma denúncia em uma manifestação a ser apresentada perante o Comitê de Direitos Humanos da ONU.

Para eles, isso "reforça o cenário de lawfare praticado contra o aqui Reclamante e a captura de alguns órgãos de Estado para essa finalidade e, por isso, pede-se vênia para registrar nestes autos, sem prejuízo de outros requerimentos que se façam oportunamente necessários".