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Jamil Chade

Atos de Bolsonaro tornam "impossível" acordo com UE, diz líder parlamentar

O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista - DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro discursa em carro de som durante ato com pautas antidemocráticas na avenida Paulista Imagem: DEIVIDI CORREA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

08/09/2021 11h50

Resumo da notícia

  • Tratado comercial entre Mercosul e UE precisa ser ratificado por parlamentos, mas resistência é elevada
  • Ataques contra democracia foram considerados como "inaceitáveis" e afastam ainda mais país de acordo com europeus


O comportamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nesta semana afastou ainda mais as possibilidades de que o acordo comercial entre a UE e o Mercosul seja ratificado. Membros da UE e do Parlamento Europeu, além de representantes de governos nacionais, alertam que, diante dos riscos que o presidente brasileiro representa para a democracia, não existem condições de pensar num tratado com o Brasil.

Negociado ao longo de 20 anos, o acordo entre os dois blocos foi assinado em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro. Mas, para entrar em vigor e cortar tarifas para bens, o entendimento precisa ser ratificado por todos os parlamentos dos países envolvidos e pelo Parlamento Europeu.

Lideranças, porém, alertam que essa ratificação ficou ainda mais distante.

"Estou extremamente preocupado com o estado da democracia no Brasil", disse a deputada europeia, Anna Cavazzini, presidente do Comitê de Mercado Interno do Parlamento e vice-presidente da delegação para relações com o Brasil.

"Há meses, Bolsonaro vem continuamente fazendo ataques ao Judiciário. Desta vez, suas ameaças chegaram a um grau inaceitável", alertou. "A comunidade internacional está acompanhando de perto os acontecimentos com grande preocupação de que ele transformará suas palavras em ações. Sob estas condições, é impossível para a UE avançar com o acordo comercial UE-Mercosul", disse.

Em uma declaração, ela pediu que Bolsonaro "se retrate de suas declarações e se comprometa a respeitar a democracia e o estado de direito".

Ela, porém, não é a única. Grupos de parlamentares têm procurado a Comissão Europeia para alertar que, no atual contexto, não haveria qualquer chance de um acordo ser aprovado por votação.

No primeiro semestre, reuniões promovidas pelo Parlamento revelaram a resistência que existe contra o projeto.

Já os defensores do acordo lamentam a suspensão das tratativas e destacam como Bolsonaro passou a ser uma "desculpa perfeita" para as alas mais protecionistas da UE e que nunca quiseram um acordo.

Há poucos dias, o presidente da França, Emmanuel Macron, ainda evocou a situação da política ambiental de Bolsonaro para justificar seu veto ao acordo. O francês concorre às eleições presidenciais em 2022 e precisa do voto dos ecologistas, ruralistas e alas mais conservadoras na França. Acenar com um tratado neste momento com o Brasil seria, na avaliação de observadores em Paris, um tiro no pé de sua própria campanha.