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Jamil Chade

Ato em embaixada do Brasil em Paris usa absorventes para atacar Bolsonaro

10.out.2021 - Ato em embaixada do Brasil em Paris usa absorventes para atacar Bolsonaro - Coletivo Alerta França Brasil/MD18 Ubuntu Audiovisual
10.out.2021 - Ato em embaixada do Brasil em Paris usa absorventes para atacar Bolsonaro Imagem: Coletivo Alerta França Brasil/MD18 Ubuntu Audiovisual
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/10/2021 13h58

Manifestantes de diferentes grupos brasileiros e movimentos sociais franceses decoraram a embaixada do Brasil em Paris com absorventes, num ato contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Neste domingo (10), o edifício da diplomacia brasileira na capital francesa acordou com centenas de absorventes, muitos deles com a frase: "as mulheres vão te derrubar".

Nas grades do imóvel, foram amarrados centenas de absorventes higiênicos, com as palavras de ordem "Fora Bolsonaro", "Genocida", "Mais saúde", "600 mil mortos", entre outras frases escritas em vermelho, em português e francês.

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10.out.2021 - Ato em embaixada do Brasil em Paris usa absorventes para atacar Bolsonaro
Imagem: Coletivo Alerta França Brasil/MD18 Ubuntu Audiovisual

Entre os responsáveis pelo ato está o Coletivo Alerta França Brasil/MD18.

A polêmica eclodiu depois que o presidente Jair Bolsonaro vetou trechos da nova lei que previa a distribuição gratuita de absorventes. A resposta veio por meio da Secretaria de Comunicação, que nas redes sociais explicou que o "governo seguirá empenhando-se por todos os brasileiros" e que a alegação era "falsa".

"Apesar dos vetos, o Governo Federal irá trabalhar para viabilizar a aplicação dessa medida, respeitando as leis que envolvem o tema, para atender de forma adequada as necessidades dessa população", disse.

Os movimentos sociais, porém, insistem em denunciar o governo. "Cerca de 5 milhões de brasileiras estiveram ameaçadas de perder o acesso a um dos itens básicos da higiene feminina", disseram, num comunicado emitido em Paris neste domingo.

"No último dia 7 de outubro, o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, vetou a distribuição gratuita de absorventes às mulheres em situação de vulnerabilidade social, o que afetaria desde presidiárias a estudantes de baixa renda das escolas públicas. O tema suscitou grande polêmica, gerando críticas acirradas", explicaram.

"Diante da pressão, e do vexame internacional advindo de um eventual vazamento da história absurda do veto, ele recuou. Nesse processo de idas e vindas, deixou de novo patente a falta de empatia e sensibilidade de um governante cruel e mesquinho, que despreza as mulheres", apontaram.

"Endossando o repúdio a essa tentativa de atacar a dignidade da população feminina mais vulnerável, membros de diversos grupos de resistência realizaram, nesse domingo, outra intervenção na fachada da embaixada brasileira em Paris. Com isso denunciamos a misoginia de quem ocupa a cadeira da presidência e, ao mesmo tempo, reforçamos nossa solidariedade às mulheres que poderão ser afetadas, caso o levantamento do veto seja apenas mais uma bravata e não se concretize", completaram.

Diplomacia age para esvaziar resolução na ONU sobre meninas e casamento forçado

O ato do presidente ocorreu na mesma semana em que o Itamaraty se absteve no Conselho de Direitos Humanos da ONU em uma votação sobre propostas de países ultraconservadores para minar uma resolução que tem como objetivo fortalecer a defesa de meninas contra casamentos forçados.

A resolução final foi aprovada condenando casamento infantil, inclusive com o voto brasileiro. Mas antes de o texto definitivo ser submetido, governos de países de maioria muçulmana, Rússia e outros ultraconservadores apresentaram uma bateria de emendas para tentar enfraquecer o texto.

Em cada uma das emendas, o Brasil optou por se abster ou votar a favor, se distanciando de países Ocidentais e de todos os latino-americanos.

Moscou, por exemplo, insistiu que fosse incluído na resolução uma referência ao fato de que os pais de meninas tenham um papel de "guia" no acesso das menores à educação sexual e saúde reprodutiva. Em outras partes da resolução, Moscou também pede envolvimento dos pais.

Num dos trechos, os russos pediam que a resolução reconhecesse que o apelo por participação inclusiva de meninas seja "consistente com o desenvolvimento de suas capacidades". Moscou ainda sugeria que o termo "meninas" fosse retirado de um parágrafo garantindo o respeito por "integridade do corpo e autonomia". Pela proposta russa, apenas o termo "mulheres" deveria ser mantido.

Moscou, apoiado por países de maioria muçulmana, ainda pediram que um trecho inteiro da resolução fosse eliminado. Ele dizia que governos

"Reafirmam que os direitos humanos incluem o direito de escolher livremente o cônjuge, de contrair matrimônio somente com livre e pleno consentimento e de ter controle e decidir livre e responsavelmente sobre assuntos relacionados à sexualidade, incluindo saúde sexual e reprodutiva, livre de coerção, discriminação e violência, e reconhecendo que relações iguais em assuntos de relações sexuais e reprodução, incluindo o pleno respeito à dignidade, integridade e autonomia corporal, exigem respeito e consentimento mútuos e a liberdade de escolher se deseja se casar e se deseja ter relações sexuais".

Ao lado do Brasil na abstenção ficaram países como o Togo, Gabão e Bahrein. Mas todos os europeus e latino-americanos, inclusive com governos conservadores, votaram contra as emendas. A proposta, portanto, foi derrotada.