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Jamil Chade

Cidade italiana aprova homenagem a Bolsonaro e gera indignação

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL e Janaína Cesar

25/10/2021 14h12Atualizada em 25/10/2021 19h34

Resumo da notícia

  • Cidade berço dos Bolsonaros é comandada pelo partido de Salvini, populista de direita e admirador do presidente brasileiro
  • Anguillara Veneta, de 4 mil habitantes, gastará o equivalente a 60% do orçamento anual para eventos só com a festa para Bolsonaro
  • Para a oposição, Jair Bolsonaro não cumpre os critérios para receber o título

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nem sequer iniciou sua viagem para a Itália, mas a sua presença já instaurou uma forte polêmica. A cidade de seus antepassados, liderada por uma prefeita de um partido populista de direita, propôs conceder a cidadania honorária ao brasileiro. Desde o anúncio da proposta, o tema passou a dominar o debate político, com protestos organizados contra a iniciativa e pressões.

A homenagem será dada pela Prefeitura de Anguillara Veneta, no norte da Itália. Desde 1993, o pequeno município tem o título de "cidade da paz e dos direitos humanos". Não por acaso, religiosos, a ala moderada dos políticos locais, sindicatos e outros grupos tentaram impedir que o projeto de receber Bolsonaro fosse adiante.

O presidente viaja para a Itália nesta semana, onde participa da cúpula do G-20, ao lado dos ministros Paulo Guedes (Economia) e Carlos França (Exteriores). Mas quer aproveitar para visitar suas origens. Vittorio Bolzonaro saiu da cidade com sua família para o Brasil, por volta de 1878. A mudança da ortografia no nome ocorreu por conta de um erro no cartório.

Numa reunião de emergência entre os vereadores do local, a proposta foi aprovada nesta segunda-feira. Foram nove votos a favor, três contra e uma abstenção. Mas não sem uma avalanche de polêmicas e resistência por parte da sociedade. A diocese do local já indicou que irá emitir um comunicado para se distanciar da decisão da prefeitura.

Enquanto a votação ocorria, um pequeno protesto foi organizado no local, com bandeiras do Brasil e um cartaz com a palavra: "vergonha".

Uma festa está sendo prevista para o dia 1º de novembro, e a prefeita, Alessandra Buoso, chegou a pedir a liberação de 9.000 euros (R$ R$ 58 mil) para receber "uma delegação estrangeira". Para uma cidade de apenas 4.000 habitantes e que atravessa uma crise econômica, o valor gerou revolta de uma parcela da população.

A prefeita é do partido Liga, liderado por Matteo Salvini, um admirador de Bolsonaro. Na imprensa local, a gestão da pandemia no Brasil e o racismo de suas declarações foram citados como argumentos para deslegitimar o título.

Para Antonio Spada, um dos vereadores de oposição, o valor da festa e a homenagem são "escandalosos". Em entrevista ao UOL, ele explicou que o montante destinado é mais da metade de todo o orçamento do pequeno vilarejo para um ano de atividades culturais. O valor é também nove vezes o salário de um professor primário.

Spada contou que pediu uma reunião com a prefeita, que alegou que não teria como recusar a homenagem. "É um mistério essa decisão", disse. "Tem algo que não está sendo contado para nós", completou.

Segundo ele, a oposição se dá por conta de Bolsonaro não cumprir nem os critérios mínimos para a concessão do título. Spada conta que a exigência é de que a pessoa homenageada promova a cidade pelo mundo. "O que é que ele fez pela cidade?", questiona.

No momento da votação e para a surpresa de todos, os jornalistas locais foram retirados da sala do conselho da prefeitura. Procurada pela reportagem, a prefeita se recusou a explicar seu ato. Mas fontes na cidade confirmaram que as tratativas já estavam ocorrendo há pelo menos dois meses que, mesmo antes da votação, uma delegação brasileira já estava na cidade para os preparativos.

Mesmo com o voto, os protestos continuaram. Uma campanha nas redes sociais somou mais da metade de assinaturas que a população da cidade.

Já no final de semana, protestos foram organizados diante da prefeitura, enquanto sindicatos, a Associação Nacional da Resistência Italiana e outros grupos tentaram impedir a aprovação da homenagem. "Isso não é uma questão de direita contra esquerda", disse Spada. "Não temos problema em ver Bolsonaro vir à cidade. Mas dar um título oficial para ele é outra história", alegou.

Na imprensa italiana, políticos de centro e de esquerda da Itália criticaram a decisão da prefeitura do norte do país, insistindo que a população local "não merecia" o ato de apoio a Bolsonaro.

Religiosos questionam decisão

Mesmo sem falar com a imprensa, a prefeita da cidade soltou uma nota, na qual explica os motivos pelo qual decidiu realizar a homenagem, apontando que as origens de Bolsonaro estão em Anguillara Veneta, e que o governo brasileiro entrou em contato com a prefeitura para estabelecer relações amigáveis com a cidade. Também é feita referência à tradicional amizade entre os dois países e uma insistência por parte da prefeita de que o ato não era político.

Mas religiosos italianos rebateram imediatamente o conteúdo da comunicação. "Estes são argumentos que pouco têm a ver com o que Bolsonaro - reconhecidamente eleito democraticamente - representa para o Brasil e para o mundo de hoje", disse o padre Massimo Ramundo, que passou 20 anos no Brasil e hoje está em Verona.

"Se Bolsonaro representa simbolicamente todo o Brasil, isso significa que as mortes que suas políticas negacionistas causaram, os povos indígenas que continuam a ser expulsos de suas terras em favor dos grandes latifundiários, os milhares de hectares de floresta amazônica também são representados por Bolsonaro?", questiona.

"A invocação da hospitalidade parece ser mais uma confirmação de quão errada é a decisão do município de Anguillara Veneta. Como Igreja Católica, e como missionários, sempre estivemos na linha de frente, na Itália e no exterior, no que diz respeito às políticas de recepção", disse. "Isso deve ser universal, algo que nem Bolsonaro, pelas razões mencionadas acima, nem muitos partidos e administrações italianas estão fazendo com respeito aos migrantes, especialmente africanos, com políticas vergonhosas de rejeição e financiamento de centros de detenção, cujo único objetivo é humilhar a pessoa humana", disse.

"Teria sido melhor se a prefeita tivesse assumido toda a responsabilidade pelo ato que ela fez com que a Câmara Municipal votasse: dizer que a política nada teve a ver com isso é mais um disparate", insistiu.

"Quando a cidadania honorária é concedida a uma pessoa, isso significa que concordamos com ela, com suas ideias e com as ações que ela põe em prática. Neste momento da história, penso que dar a cidadania honorária a uma pessoa como Bolsonaro representa um acordo com tudo o que ele representa, lembrando também que o fato de ter sido eleito democraticamente não significa que ele esteja certo. Hitler também foi eleito pelo povo alemão, mas isso não é motivo para justificar seus atos nefastos contra a humanidade", completou o religioso.