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Jamil Chade

Impasse sobre vacinas causa disputa entre ricos e emergentes no G20

Encontro G20  - Reprodução/Twitter @g20org
Encontro G20 Imagem: Reprodução/Twitter @g20org
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

28/10/2021 10h16

Resumo da notícia

  • No G-20, Brasil e emergentes querem reconhecimento global de vacinas
  • Pandemia e clima dividem líderes às vésperas de cúpula
  • Processo negociador entra pela madrugada sem acordo; governos querem anunciar compromisso para vacinar 70% da população de cada país até julho/22
  • Bolsonaro, Biden, Macron e outros estarão em Roma no fim de semana

Faltando apenas dois dias para a abertura da cúpula de líderes do G-20, governos estão divididos sobre alguns dos grandes pontos da agenda internacional: meio ambiente e a pandemia da covid-19.

A reunião começa no sábado, em Roma, com a presença de líderes como Joe Biden, Jair Bolsonaro, Emmanuel Macron e Boris Johnson. Os líderes da China, Xi Jinping, e o russo Vladimir Putin participarão do encontro por vídeo conferência.

Mas, desde quarta-feira, negociadores representando cada um dos governos estão mergulhados num processo para tentar fechar uma declaração conjunta de líderes. Repletas de impasses, as negociações se estenderam até 3 da manhã já desta quinta-feira. Poucas horas depois, os diplomatas estavam de volta ao local fechado à imprensa para retomar o processo.

Um dos pontos mais delicados é a situação da pandemia da covid-19. Uma proposta feita pelo México e apoiada pelo Brasil quer que o G-20 reconheça que vacinas chanceladas pela OMS devam ser adotadas por todos os países como critérios legítimos para permitir a entrada de pessoas nos diferentes países.

Nos últimos meses, governos europeus e outros têm insistido que apenas vacinas chanceladas por sua agência sanitária nacionais são consideradas como válidas na autorização de entrada de um estrangeiro.

O problema, segundo os países emergentes, é que tal medida exclui vacinas chinesas e, no futuro, de outras empresas.

Na OMS, vacinas como a da Sinovac também foram certificadas. Mas a agência não tem como forçar governos a aceitar sua recomendação. Para os países emergentes, muitos dos quais compraram vacinas chinesas e russas, o gesto de governos europeus de não adotar a lista da OMS é "discriminatório".

No caso brasileiro, a CoronaVac fabricada pelo Instituto Butantan com parceria com a Sinovac atendeu cerca de 100 milhões de brasileiros. Mas ainda fica de fora de certas agências regulatórias de países estrangeiros, prejudicando a viagem de brasileiros.

A proposta no G-20 de um reconhecimento global, porém, enfrenta resistências dentro do G-20 e terá de ser negociada nos próximos dias.

Plano para encerrar a pandemia

Outro ponto da agenda é a meta da OMS de garantir vacinas para 40% da população de cada país, até o final do ano, e 70% dos países até meados de 2022. O Brasil, nas negociações, tem insistido sobre a necessidade de garantias de distribuição de vacinas pelos países ricos e da transferência de tecnologias.

Um acordo deve ser anunciado. Mas há, dentro do G-20, quem resista à ideia das metas da OMS. De acordo com negociadores envolvidos no processo, os europeus estão céticos com a ideia. A meta da OMS de vacinar 10% da população de cada país até setembro fracassou, com mais de 50 países que não atingiram a marca.

Grupos de direitos humanos, porém, alertam que os países ricos entregaram aos mais pobres apenas uma fração das mais de 1,1 bilhão de doses que prometeram doar.

"Vamos nos comprometer ou não com um plano de vacinação?" cobrou o representante da OMS, Bruce Aylward. Nesta quinta-feira, a agência fez um apelo para que os líderes do G-20 abandonem as promessas e passem a distribuir doses de forma imediata. Para agência, não existe mais um problema de produção, mas de distribuição.

De acordo com a entidade, se as vacinas administradas até hoje tivessem sido distribuídas de forma equitativa, 40% da população de cada país já teria sido vacinada, o que teria permitido superar a fase mais aguda da doença. "A pandemia está longe de terminar", lamentou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Durante a preparação do encontro, a OMS fez circular dados que revelam a disparidade sobre vacinas. Hoje, apenas cinco países africanos, ou menos de 10% dos 54 países do continente, devem cumprir a meta de vacinar totalmente 40% de suas populações até o final do ano.

Três países africanos - Seicheles, Maurício e Marrocos - já atingiram a meta. Ao ritmo atual de progresso, apenas dois outros países (Tunísia e Cabo Verde) serão capazes de atingir esta meta.

A UNICEF ainda relatou uma escassez iminente de 2,2 bilhões de seringas para a vacinação. Ao ritmo atual, a África ainda enfrenta um déficit de 275 milhões de vacinas contra a COVID-19, enquanto a meta de final de ano é vacinar totalmente 40% da população do continente.

Até o momento, 77 milhões de pessoas estão totalmente vacinadas na África, representando apenas 6% da população africana. Em comparação, mais de 70% dos países de alta renda já vacinaram mais de 40% de sua população.

Sem acordo sobre fundo

No G-20, porém, tampouco existe ainda um acordo sobre a proposta de americanos sobre a criação de um fundo para bancar a distribuição imediata e futura de vacinas. Para os emergentes, a ideia pode significar que a própria indústria dos países ricos seja, no fundo, bancada em parte com dinheiro dos emergentes.

Há ainda uma percepção de que os países ricos queiram se concentrar na reforma da OMS e da estrutura internacional para lidar com futuras pandemias. Mas, para Brasil e outros emergentes, o foco deve ser a crise atual.

Meio Ambiente

Tampouco há um acordo ainda sobre qual será o formato da declaração final do G-20 sobre questões ambientais. O Brasil, por exemplo, insiste que a questão climática precisa ser tratada de uma forma mais ampla, com considerações de desenvolvimento.

O modelo europeu, com foco na redução do desmatamento no Brasil e pressão sobre China ou Índia, é considerado como "problemática".

A falta de um entendimento é interpretada por negociadores como um sinal claro das dificuldades que delegações terão para chegar a um acordo a partir do dia 31, quando começa a cúpula do Clima, em Glasgow.

Palco de Mussolini e segurança extra

As negociações do G-20 ocorrem às sombras da estrutura criada por Benito Mussolini nos anos 30 para sediar a "Esposizione Universale Romana". O evento deveria ocorrer em 1942, coincidindo com os 20 anos do regime fascista. Mas a Segunda Guerra Mundial enterrou o sonho do líder italiano e o evento nunca ocorreu.

Para a chegada de chefes de estado e de governo, 10 quilômetros quadrados de Roma serão blindados e transformados em zona restrita. Pelo menos 500 soldados serão usados para a operação, além de centenas de policiais. Protestos de grupos como Fridays for Future terão de ocorrer distante da cúpula.


Teste Covid-19

Todas as delegações, jornalistas e participantes ainda são obrigados a passar por um teste para saber se estão ou não contaminados pela covid-19. O resultado do exame é válido por apenas 48 horas, o que significa que negociadores que iniciaram as reuniões na quarta-feira já são obrigados a refazer os exames antes mesmo da cúpula de líderes começar no sábado.

Bolsonaro, que não se vacinou, ficará hospedado na embaixada do Brasil em Roma. Ali, os protocolos sanitários são determinados pelo governo brasileiro. E não pelas autoridades italianas.