Jamil Chade

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Brasil critica potências, cobra ONU e quer acordo político para palestinos

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a falta de união da comunidade internacional para lidar com a crise no Oriente Médio, cobrou o Conselho de Segurança da ONU a fazer mais pela paz e alertou que apenas um acordo político pode trazer uma solução para israelenses e palestinos.

As críticas foram feitas pelo chanceler brasileiro, Mauro Vieira, que participou nesta quarta-feira de uma reunião do colegiado convocada para lidar com a crise no Oriente Médio no Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino. Em um discurso, porém, ele atacou abertamente a falta de união na comunidade internacional.

Em sua avaliação, os acordos que estabeleceram uma trégua nos últimos dias em Gaza são "sinais de esperança", mas não a solução por si só. O governo brasileiro defende que a criação de um Estado palestino reconhecido internacionalmente precisa fazer parte de um acordo de paz.

O chefe do Itamaraty também alertou para a desunião que permeou o Conselho de Segurança ao lidar com a crise. O órgão precisou de semanas até que um acordo fosse estabelecido. Para Vieira, há um "horror sem precedentes" em Gaza — e nem isso gerou uma resposta unida da comunidade internacional.

Nós temos que nos unir e ser solidários com todos os necessitados. A situação no Oriente Médio, incluindo a questão palestina, é, no entanto, um dos assuntos mais vetados do Conselho de Segurança. Esse registro é um testemunho infeliz do fato de que, na maioria das vezes, as divergências triunfam sobre o interesse comum nesse órgão.
Mauro Vieira, chanceler brasileiro

Segundo ele, "o conflito no Oriente Médio não desapareceu, pois os países não conseguiram se entender na ONU.

"O agravamento da situação entre Israel e a Palestina nos últimos anos não nos obrigou a nos unirmos e agirmos em prol do objetivo comum de alcançar a paz para os palestinos, israelenses e o povo do Oriente Médio em geral", disse.

Para Vieira, o colegiado também tem responsabilidade ao não conseguir atingir seu objetivo de defender a paz e a segurança internacional.

O que é pior: não nos unimos no passado. E parece que não estamos prontos para nos unirmos agora.
Mauro Vieira

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Crimes denunciados de ambos os lados

O governo brasileiro ainda listou os crimes cometidos em Gaza — entre os quais mais de 5 mil crianças mortas e o total de 14 mil vítimas. "Os números de deslocamento são impressionantes, atingindo quase 1,7 milhão de pessoas, ou 80% da população de Gaza", disse Vieira.

"Estima-se que 41 mil casas foram destruídas ou severamente danificadas — 18 hospitais foram fechados. O número de caminhões com assistência humanitária é insuficiente para atender às necessidades básicas da população, como alimentos, água, medicamentos e combustível", afirmou.

Para ele, as violações do Direito Internacional Humanitário e do Direito Internacional dos Direitos Humanos continuam à medida que a infraestrutura civil é destruída.

Vieira disse ainda que o Brasil é "inequivocamente solidário às famílias israelenses, cujos membros inocentes foram feitos reféns". Para o Brasil, porém, todos os inocentes devem ser soltos de forma incondicional.

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O Brasil saúda a libertação de 74 reféns nos últimos dias. No entanto, 167 pessoas ainda são mantidas em cativeiro. Compartilhamos sua dor e o sofrimento insuportável de suas famílias. Não podemos suportar a ideia de crianças tiradas de suas famílias, em nenhuma circunstância e sem qualquer justificativa.
Mauro Vieira

Brasil cobra ONU

Na visão do Brasil, o Conselho de Segurança e a comunidade internacional devem unir forças para garantir o fim da violência e para garantir o acesso da ajuda humanitária em Gaza. O Brasil aplaudiu a trégua entre as partes e indicou que a medida "é um sinal de que o acordo é possível, mesmo quando parece inalcançável e inatingível".

O chanceler insistiu, porém, que nem a resolução aprovada na ONU há duas semanas nem os apelos por pausas são suficientes.

O Conselho deve fazer mais. Ele deve se unir para adotar um curso de ação mais decisivo e abrangente que possa consolidar os ganhos; abordar de forma sustentável e previsível a terrível situação no local; e promover um futuro mais seguro e esperançoso.
Mauro Vieira

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Para o Brasil, o acordo deve ser a base para a "retomada do processo de paz entre Israel e a Palestina". "Não podemos perder de vista a necessidade de abordar as causas fundamentais da questão palestina por meio do diálogo, da vontade política e da boa diplomacia", disse.

Vieira ainda defendeu que o processo seja "totalmente inclusivo, considerando as perspectivas de todas as partes interessadas relevantes". "Todos os países e parceiros com influência sobre as partes devem ser chamados a assumir suas responsabilidades para chegar a uma solução duradoura para essa questão central", disse.

Dois Estados

Para o Brasil, apenas a solução com a criação de dois Estados pode trazer paz. "Enterrar a solução dos dois Estados é enterrar qualquer perspectiva de paz", disse.

Um Estado palestino viável, vivendo lado a lado em paz e segurança com Israel, dentro de fronteiras mutuamente aceitas e reconhecidas internacionalmente, é o cumprimento da autodeterminação palestina.
Mauo Vieira

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Segundo ele, qualquer iniciativa de negociação de paz, na forma de uma conferência internacional, como alguns Estados membros propuseram, conta com o apoio inequívoco do Brasil. "As legítimas aspirações de palestinos e israelenses por paz e segurança em seus próprios países não podem mais ser ignoradas ou negligenciadas", apelou.

Para ele, a ONU precisa cumprir suas responsabilidades na manutenção da paz e da segurança internacionais. "O Conselho de Segurança deve se unir em torno de um bem comum e se elevar acima de qualquer interesse individual de seus membros", completou.

EUA alfineta Brasil

Uma avaliação diferente foi apresentada por Linda Thomas-Greenfield, embaixadora dos EUA na ONU. Segundo ela, a "diplomacia é difícil" e nem tudo se faz no Conselho de Segurança. Ela apontou que foi um trabalho de bastidores e silencioso que permitiu um acordo entre o Hamas e Israel.

O governo brasileiro e outros tinham criticado o veto americano e resoluções na ONU, entre elas uma que havia sido apresentada pelo Itamaraty.

A diplomata alertou que, agora, a bola está com o Hamas. Bastaria soltar os reféns para evitar novos ataques. Mas, de acordo com os americanos, o resultado do atual conflito não pode ser a permanência do Hamas. Isso, segundo ela, iria expor tanto Israel quanto a população palestina.

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Para o governo americano, o processo negociador deve conduzir a uma reunião entre Gaza e a Cisjordânia, administrados por um único governo. Hoje, o Hamas controla Gaza, enquanto o Fatah mantém a administração da Cisjordânia.

ONU quer que trégua seja substituída por um cessar-fogo

Para a ONU, a resolução que estabelece uma trégua humanitária ainda não é uma realidade plena e está sendo apenas "parcialmente implementada" .

"O sucesso não pode ser determinado em caminhões que entram em Gaza. Mas em vidas salvas", disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres — para ele, a população da região palestina vive "uma catástrofe épica".

Guterres defende um "verdadeiro cessar-fogo humanitário" e um processo que permita a criação de dois Estados que possam conviver lado a lado. Um fracasso nesse processo vai "condenar todos a um ciclo de violência e morte", disse

A ONU aplaudiu os acordos entre Israel e Hamas para uma trégua, mas Guterres ressaltou que o que existe é ainda "completamente inadequado para atender 2 milhões de pessoas".

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O volume de combustível autorizado a entrar na região é também "insuficiente" para manter operações básicas. "Muito mais precisa ser feito. A fome se mantém uma ameaça. Gaza precisa de ajuda humanitária maior e consistente", disse.

Em sua avaliação, novos pontos de entrada em Gaza devem ser estabelecidos. A cidade de Rafah (ao sul da Faixa de Gaza), segundo ele, não tem a capacidade suficiente para permitir que o volume de ajuda necessário entre na região.

Ele afirmou que o sistema de saúde entrou em colapso e que, em apenas algumas semanas, morreram mais crianças que nos últimos anos em conflitos no mundo todo. Disse também que:

  • 80% dos palestinos foram forçados a deixar suas casas;
  • 45% de todas as moradias foram afetadas ou destruídas;
  • 1 milhão de pessoas estão em abrigos da ONU;
  • Gaza registrou maior perda de funcionários na história da ONU.

Na avaliação dele, o Hamas tampouco cumpre a resolução de forma suficiente. Até agora, 60 reféns israelenses foram liberados. "Mas todos precisam ser liberados, sem condições", disse.

Israel diz que cessar-fogo é dar sobrevida para Hamas

Ao tomar a palavra hoje na ONU, a delegação de Israel disse que o foco dos debates está errado. Para eles, mais alimentos e ajuda para Gaza "não vai levar à solução". "O Hamas apenas quer implementar a solução de Hitler. Um cessar-fogo é deixar que o Hamas viva mais um dia", afirmou o embaixador de Israel na ONU, Gilad Erdan.

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Para ele, a ONU foi "cooptada" por aqueles que não querem solução e as agências internacionais foram "instrumentalizada" para atacar Israel. Israel ainda acusou Hamas de falsificar o número de mortos e diz que o mundo precisa ajudar o país a erradicar o grupo palestino. "Esse é o cessar-fogo que pode durar décadas", disse.

Palestina: 'Querem no eliminar do mapa e da história'

Para Riad Al Maliki, chanceler palestino, "a trégua precisa ser transformada em cessar-fogo". "Isso não é guerra. É carnificina", disse.

Em sua visão, a região vive uma "encruzilhada histórica". "Vivemos uma ameaça sistêmica. Há um plano para destruir a palestina e implementada à luz do dia. Estamos sendo borrados do mapa. Estamos sendo puxados para fora da história e do mapa", alertou.

Chamando Gaza de "inferno na terra", o chanceler disse que a "Palestina livre é o único caminho pela paz".

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