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Opinião

Lira revela fragilidade ao 'demonstrar força' a toda hora

A reunião do ministro Fernando Haddad com os líderes da base de apoio ao governo no Congresso é uma praxe ao começo de cada semestre legislativo. Foi assim em 2023, é assim com 2024. A reunião de Haddad com os líderes governistas no Senado acontece na sala do Conselho Monetário Nacional no sexto andar do Ministério da Fazenda, mas a com os deputados foi cancelada. O motivo tem nome e sobrenome: Arthur Lira, o presidente da Câmara que está em seu último ano no cargo. E é essa a origem do problema.

Lira tenta, a todo custo, evitar que comecem a lhe servir café frio antes de seu mandato terminar. O temor tem razão de ser. Mais sedutora do que a caneta de quem manda, só a perspectiva de usá-la. Os negociantes do poder operam sempre no mercado futuro, olhando para frente. Assim, podem se antecipar aos acontecimentos e estar bem posicionados quando a caneta mudar de mãos. Se sabem que Lira vai deixar de mandar, começam a procurar quem mandará. Na prática, a perspectiva de perder poder precipita a perda de poder. O futuro vira presente. Por isso, Lira precisa demonstrar força. Foi o que ele tentou fazer nesta terça-feira. De novo.

Nas reuniões como a que foi cancelada, governo e aliados definem, juntos, qual a ordem de prioridades dos próximos meses. Ou seja, quais leis, do ponto de vista do Executivo, devem ser votadas antes ou ficar para o semestre seguinte. Mas essa é a perspectiva do governo, não é necessariamente a do Legislativo. Por isso, apenas os líderes governistas foram convidados.

Lira fez-se de desentendido e, para dar uma suposta demonstração de força, provocou o cancelamento da reunião dizendo que não fora convidado. Foi jogo de cena. Ele sabe muito bem que a reunião com ele seria o passo seguinte de Haddad, após governo e aliados terem acertado seus ponteiros. Mas isso, na perspectiva de Lira, o enfraquece. Ele não está totalmente errado.

Lira atuou nas votações importantes de 2023 não apenas como presidente da Câmara, pautando e "despautando" o que seria votado e quando. Ele atuou também como articulador da base do governo, negociando apoios e votos para a aprovação da reforma tributária, por exemplo. E não apenas cobrou um preço caro por esse trabalho, como sabotou o quanto pode o ministro que deveria fazer essa função de articulação, Alexandre Padilha.

Como, segundo Lira, a reunião dos líderes da Câmara com Haddad havia sido marcada por Padilha (na verdade, tinha sido agendada pelo líder do governo na Câmara, José Guimarães), o presidente da Câmara resolveu mais uma vez desgastar o ministro provocando a saia justa que levou ao adiamento do encontro. É uma vitória de Pirro, pois a reunião acontecerá depois do Carnaval. Lira gastou munição à toa.

Nessas sucessivas demonstrações de força (na segunda-feira, fez um discurso escalafobético dizendo que o Congresso é quem manda no Orçamento da União), Lira acaba revelando sua fragilidade. Os poderosos confiantes em seu poder não precisam demonstrá-lo todo dia. Se o fazem é porque não estão confiantes de que o café chegará quente à sua mesa.

O alvo preferencial de Lira é Padilha, mas esse não é o ministro que mais incomoda o presidente da Câmara. Haddad se firmou como articulador político e interlocutor da Faria Lima em 2023. Cresceu porque conseguiu aprovar o que queria, e o fez conversando, não impondo. Ao crescer, Haddad fez diminuir, mesmo que não intencionalmente, a influência de Lira. Os farialimers sabem que podem recorrer a Haddad. Mesmo se não forem atendidos, serão ouvidos.

Não à toa, Lira dificultou a vida de Haddad nas últimas votações de 2023. Não será surpresa se repetir a dose em 2024. É o medo do café frio.

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