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Sub de Onyx aciona FAB como quem pede Uber

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/01/2020 03h41

Muita gente confunde verba pública com dinheiro grátis. Esse tipo de confusão deve ter acometido o cérebro de Vicente Santini, secretário-executivo da Casa Civil da Presidência, quando requisitou um jato da Força Aérea Brasileira para transportá-lo em seu mais recente deslocamento internacional.

Santini esteve no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Depois, integrou-se à comitiva de Jair Bolsonaro em Nova Dhéli, na Índia. Ao saber que o personagem voara nas asas da FAB acompanhado de duas assessoras, Bolsonaro abespinhou-se com o privilégio.

A intolerância de Santini a saguão de aeroporto tornou-se ainda mais inusitada quando o capitão se deu conta de que outros auxiliares deslocaram-se de Davos para a capital da Índia em aviões de carreira. Entre eles o superministro Paulo Guedes (Economia) e a prestigiada ministra Tereza Cristina (Agricultura).

Noticiada no site do Globo, a irritação de Bolsonaro foi seguida de uma tentativa de esclarecimento. A Casa Civil informou que tudo ocorreu dentro da normalidade. Santini ocupa interinamente a cadeira do ministro Onyx Lorenzoni, em férias. A requisição do jato "cumpriu todos os requisitos previstos na legislação vigente".

Confundir desfaçatez com normalidade é um velho hábito de pessoas que se julgam no direito de usufruir do delicioso privilégio de torrar o dinheiro alheio. Num governo em que o sub de Onyx requisita jato da FAB como quem pede um Uber, o privilégio, por institucionalizado, tende a virar religião, se é que já não virou.

Santini desfruta da amizade do Zero Três Eduardo Bolsonaro. Ocupa na Casa Civil a poltrona que era de Abraham Weintraub antes de ser promovido a ministro da Educação. Quer dizer: pertence à patota.

De volta da Índia nesta terça-feira, Bolsonaro precisaria transformar sua alegada irritação em ação. Sob pena de flertar com a avacalhação. Nessa hipótese, quem ficará irritado é o brasileiro, que paga a conta do querosene da FAB. Convém não esquecer que essa mesma gente irá às urnas em 2022.

- Atualização feita às 13h51 desta terça-feira (28/01): Ao chegar da viagem à Índia, Bolsonaro informou que decidiu afastar Vicente Santini do cargo de secretário-geral da Casa Civil. Alvíssaras!

Josias de Souza