PUBLICIDADE
Topo

Procuradoria passa dos sopapos à fratura exposta

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/09/2020 23h02

Já se sabia que o Ministério Público Federal, em pé de guerra, brigava consigo mesmo. A novidade é que a fase dos sopapos retóricos evoluiu para o estágio das fraturas expostas. A semana começou com a notícia de que Deltan Dallagnol deixou o comando da Lava Jato de Curitiba para se dedicar à saúde da filha. E terminou com a demissão coletiva de oito procuradores da Lava Jato de São Paulo e o anúncio de que também está deixando o posto o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, coordenador da Operação Greenfield, que investiga fraudes em fundos de pensão de estatais.

Nos últimos seis anos, as operações anticorrupção da Procuradoria colecionaram inimigos poderosos. Não chegaram a liquidar o esforço, mas conseguiram enfraquecê-lo. O procurador-geral da República Augusto Aras parece decidido a completar o trabalho de demolição. De início, as intenções de Aras eram apenas insinuadas. Mas os objetivos tornaram-se explícitos no final de julho.

Numa videoconferência com advogados criminalistas críticos da Lava Jato, o procurador-geral adotou o discurso dos doutores que defendem os alvos da Procuradoria. "A hora é de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure", disse Aras, sob aplausos dos criminalistas, entre eles alguns defensores de réus da Lava Jato.

O procurador insinuou que a tropa da Procuradoria trafega à margem das leis. Criticou os braços da Lava Jato de Curitiba, de São Paulo e do Rio. "Espero que o enfrentamento à criminalidade continue, (...) mas no universo dos limites da Constituição e das leis. O lavajatismo há de passar", declarou Aras na ocasião.

Como desejavam o procurador-geral e toda a oligarquia política e empresarial que sentiu o peso do braço punitivo do Estado, o lavajatismo está passando. Passa sob aplausos da família Bolsonaro, do petismo, do tucanato e do centrão. Aos pouquinhos, vai sendo restaurado o ambiente que favorece a prescrição de crimes e a impunidade. Tudo passa no Brasil, exceto uma coisa: a corrupção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL