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Josias de Souza

Birra com Joe Biden consolida o 'Projeto Pária'

Sergio Lima/AFP
Imagem: Sergio Lima/AFP
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/11/2020 05h08

Se o Brasil tivesse um chanceler, Jair Bolsonaro já teria se rendido à lógica, cumprimentando Joe Biden pela vitória na sucessão dos Estados Unidos. A providência é recomendada por onze em cada dez diplomatas experientes e hábeis, qualidades desconhecidas do ministro Ernesto Araújo.

Se Deus intimasse Araújo a optar entre o exercício das relações exteriores e o isolamento, o ministro daria uma resposta rápida e fulminante: "Morra o multilateralismo". E, com isso, ficaria claro que, para Araújo, o isolamento é o grande acontecimento. Consolida-se sob Bolsonaro o "Projeto Pária".

Há duas semanas, o antichanceler Araújo discursou para uma turma de formandos do Instituto Rio Branco. A alturas tantas, lecionou: Se a atuação da diplomacia "faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária."

Bolsonaro leva muito a sério o desejo de transformar o Brasil em pária. Podendo elevar a própria estatura, o presidente preferiu rebaixar o pé direito do Planalto. Na América Latina, já felicitaram Biden: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Venezuela, Equador, Guiana, Paraguai, Peru e Uruguai. O Brasil ficou na companhia do Suriname.

No resto do mundo, Bolsonaro colocou o Brasil do lado de China, Rússia e México. Num cenário de ruína econômica, o governo brasileiro decidiu se estranhar com o novo presidente do nosso segundo maior parceiro comercial. Por quê? Por nada!

Sabe-se que Biden encostará na jugular das autoridades brasileiras suas apreensões ambientais. Mas ainda não se sabe qual será a agenda do sucessor de Trump para o Brasil. Por enquanto, a única certeza disponível é a seguinte: por trás da descortesia de Bolsonaro há o nada. Ou Donald Trump, que muitos imaginam ser a mesma coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL