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Josias de Souza

Única certeza é que Bolsonaro não se vacinará

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/12/2020 18h53

As declarações do general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, sobre a vacinação contra Covid-19 não chegam a inspirar segurança de que os problemas serão resolvidos adequadamente. Mas servem para organizar as confusões que estão por vir.

Em audiência no Congresso, o general tratou como certa a chegada ao Brasil, a partir de janeiro, de uma vacina que acaba de retornar à fase de testes. Expôs dados que não batem com informações de sua pasta. E mencionou a hipótese de compra de imunizante de uma marca que sua equipe já descartou.

Pazuello deu especial realce à vacina do laboratório AstraZeneca, principal aposta do governo. Trata-se de uma parceria com a Universidade de Oxford, com a qual a Fiocruz, fundação da pasta da Saúde, firmou convênio. O governo investe quase R$ 2 bilhões nessa vacina.

Segundo o ministro, chegarão ao Brasil, entre janeiro e fevereiro, 15 milhões de doses. A Fiocruz falava em 30 milhões de doses. Pazuello disse que haverá 100 milhões de doses dessa vacina disponíveis no país no primeiro semestre de 2021. E 160 milhões de doses no segundo semestre. Pela conta da Fiocruz, o número do segundo semestre seria de 110 milhões de doses —ou 50 milhões a menos.

Pazuello esqueceu de lembrar —ou lembrou de esquecer— que essa vacina que traz o selo de Oxford sofreu um percalço na semana passada. Descobriu-se que, durante a testagem, um grupo de voluntários recebeu uma dose e meia em vez de duas doses, como estava previsto.

Paradoxalmente, quem tomou a dose menor teve proteção maior, de 90%. Quem recebeu as duas doses completas obteve imunização de apenas 62%. A comunidade científica torceu o nariz. E a vacina teve de retornar à fase de testes. Assim, o cronograma de entrega exposto por Pazuello no Congresso vale apenas até certo ponto. O ponto de interrogação.

O ministro declarou que o governo espera receber outras 42 milhões de doses de vacinas do consórcio Covax Facility, coordenado pela Organização Mundial da Saúde. Que vacina? O general citou o imunizante da Pfizer. Há dois problemas.

O primeiro problema é que a Pfizer ainda não aderiu ao consórcio da OMS, no qual o Brasil investe R$ 2,5 bilhões. O segundo é que o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, auxiliar que priva da confiança de Pazuello, declarou na véspera que essa vacina não serve para o Brasil por conta da temperatura de armazenagem.

Por mal dos pecados, Pazuello não mencionou em sua exposição a CoronaVac, chamada por Jair Bolsonaro de "vacina chinesa do João Doria." Ironicamente, essa pode ser a única vacina disponível no Brasil no início do ano. Se for certificada pela Anvisa, será aplicada em São Paulo. Será divertido observar a reação do resto do país.

Nesta quarta-feira, certificou-se no Reino Unido a vacina do laboratório Pfizer, desenvolvida em parceria com o BioNTech. Trata-se de um feito histórico. Desenvolveu-se em menos de um ano vacina que normalmente levaria uma década para ficar pronta. Começará a ser aplicada nos ingleses na semana que vem.

O início da vacinação no Reino Unido deflagrará um novo estágio da corrida pelas vacinas. Governantes de outros países, entre eles o Brasil, começarão a ser pressionados a demonstrar o que estão fazendo para apressar a imunização dos seus governados.

Boris Johnson, o primeiro-ministro inglês, explicou o significado da vacinação num post que publicou nas redes sociais: "É a proteção das vacinas que vai finalmente nos trazer de volta às nossas vidas e fazer a economia andar novamente." Bingo!

A vacina da Pfizer foi excluída do cardápio de opções do governo brasileiro porque precisa ser armazenada a baixíssima temperatura (- 70ºC). A rede pública de saúde dispõe de equipamentos capazes de manter vacinas em temperaturas de 2ºC a 8ºC.

Difícil entender por que Pazuello declarou durante a audiência no Congresso que o Brasil poderia adquirir, via OMS, um lote de vacina que sua equipe descartou.

Nas palavras do ministro, só há "uma, duas ou três" opções de laboratórios que desenvolvem vacinas úteis ao Brasil. Declarou que a propaganda dos laboratórios não condiz com as condições verificadas pelo ministério quando se dispõe a comprar. As quantidades são "pífias", afirmou Pazuello. Faltou explicar que o problema não é dos laboratórios, mas do governo brasileiro, que demorou a entrar na fila.

O governo apostou na vacina AstraZeneca-Oxford, que está pendurada em novos testes. Subsidiariamente, inscreveu-se no consórcio coordenado pela OMS, que ainda não levou vacinas eficazes à vitrine. Nesse contexto, espanta que o governo ainda não tenha devolvido à sua cesta a vacina do laboratório chinês Sinovac, que opera em São Paulo em parceria com o Instituto Butantan.

Parece incrível. Mas, por enquanto, a única certeza que o governo brasileiro oferece à sociedade a respeito de vacinas é que Jair Bolsonaro não cogita entrar na fila da imunização. "Eu não vou tomar, é um direito meu", reafirmou o presidente na última quinta-feira, em transmissão ao vivo pelas redes sociais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL